terça-feira, janeiro 31, 2006

Um país em mudança

O casamento entre duas mulheres, marcado para quarta-feira, 1 de Fevereiro, na 7ª Conservatória do Registo Civil, em Lisboa, é muito mais do que um caso mediático...

Teresa e Lena, de 28 e 35 anos, respectivamente, são a prova de que existe uma sociedade viva, que não se conforma com a proibição do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Certas da força e da razão do articulado constitucional, nomeadamente do artigo 13º, que proíbe qualquer tipo de discriminação com base na orientação sexual, ambas decidiram correr o risco de conquistar o direito a casar.
Sem esperar pela resposta à petição entregue no Parlamento, no passado dia 23, que reuniu mais de quarto mil assinaturas, Teresa e Lena decidiram enfrentar, com a cara destapada, os poderes instalados, que insistem nos tiques marialvas, apesar da fina camada de verniz liberal.
Este casamento é muito mais do que um acto de amor.
É um sinal de que existe, em Portugal, uma sociedade que não encontra resposta nos partidos políticos, que hipocritamente continuam a varrer para debaixo do tapete uma questão de civilização.
Enquanto a classe dirigente se contenta com umas viagens a Paris, a Londres e a Nova Iorque para reivindicar o estatuto de elite cosmopolita, as grandes causas da sociedade civil continuam a passar-lhe completamente ao lado.
O desafio a quem persiste em tentar deixar apodrecer mais uma questão incómoda constitui um sinal de esperança.
Tal como a candidatura de Manuel Alegre, que seduziu mais de um milhão de portugueses, a opção pública de duas jovens homossexuais representa uma cidadania revigorada, um país em mudança.
Apesar dos esforços de alguns, em justificar o injustificável, a verdade é que existe uma parte da sociedade que está farta do actual status quo, engordado à custa do moralismo reinante e dos negócios que tresandam a corrupção e a tráfico de influências.
A defesa da igualdade de direitos para os casais homossexuais nem é de esquerda nem é de direita: é uma questão de liberdade.
Os sonhos das duas jovens merecem a atenção e uma resposta de todos, nomeadamente dos que têm responsabilidades legislativas e governativas.A vida das pessoas é mais importante do que as manobras dilatórias e politiqueiras
Fonte: Visão

sábado, janeiro 28, 2006

RETALHOS - O frio da realidade I

A fase final da preparação de um Combatente Pára-quedista, é dedicada a simular, em condições adversas e semelhantes ao da guerra no ultramar, uma operação militar que ocorrem nas três frentes de batalha em África. Visa o último teste de aperfeiçoamento, de forma a pôr em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo destes sete meses.
O dia começou frio, como a noite não dormida, como é habitual na viagem de fim-de-semana. Lá estavam as Berliet’s, – as viaturas, de origem francesa e montadas no Tramagal, mais usadas no transporte de tropas – alinhadas ao longo do arruamento que aponta para a porta de armas, à nossa espera para nos embrulhar no seu aço frio.
A ração de combate, para quatro dias, estava bem aconchegada na mochila. Tudo era enlatado: feijão, sardinhas, bolachas da manutenção militar, ladrilhos de marmelada, chocolate em bisnagas como se fossem pastas de dentes, água enlatada no cantil. Até eu me sentia também enlatado dentro daquele camuflado, modelo PQ qualquer coisa, com uma dúzia de bolsos de coisa nenhuma. Tudo ia na minha casa ambulante – a mochila – e ainda a manta e a capa para dormir, bem enrolada em forma de “U” invertido. A isso juntava a G3 carregada com munições de madeira.
Surgiu o Capitão Gomes, já completamente ataviado com ar de guerrilheiro. Abandonou o ar de bonacheirão, adoptando agora aquela expressão dura, com o olhar penetrante e atento, capaz de penetrar no íntimo de cada soldado, mercê da sua larguíssima experiência adquirida na guerra.
E um a um lá gritavam os comandantes de pelotão até chegar ao meu grupo:
“ - Dá licença meu capitão, 7º pelotão pronto.” - Gritou com voz firme o Sargento.
De forma ordenada, fomos subindo para aquelas máquinas de aço frio e pouco cómodas, onde se acomodaram trinta futuros combatentes.
Ainda o dia não tinha despontado e já se notavam, no horizonte, nuvens escuras de chuva que aliadas à penumbra tornavam o ambiente ainda mais gélido. Saímos à porta de armas do Regimento, com a sentinela bem perfilada.
O comboio militar virou à direita ficando, à esquerda, a Base Aérea nº 3, onde descansavam os nossos amigos Noratlas, e o ainda velhinho Ju-52, velhos conhecidos, dos saltos no Arripiado.
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sexta-feira, janeiro 27, 2006

Vou me alistar novamente nos Pára-quedistas


Vou me alistar novamente nos Pára-quedistas e não estou maluco, não senhor. Contando com camaradas d'armas deste calibre e com este poder de fogo, claro que vou...


Espreitem e verão que tenho razão.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Austeridade: reformados famosos

Reforma ao fim de 5 anos de serviço

Estão nesta situação o ex-deputado do Partido Comunista Português, Octávio Teixeira, aposentado como consultor com o nível 18a desde Dezembro de 2001, que recebe uma pensão de 2385 euros por mês, o presidente do Conselho Fiscal do Benfica, Walter Marques, reformado do banco desde Dezembro de 1991 com o mesmo estatuto do ex-deputado comunista e o fiscalista Diogo Leite Campos, que se reformou como administrador em 23 de Fevereiro de 2000.
Um caso ‘sui generis’ aconteceu com o ex-ministro das Finanças, Bagão Félix. Trata-se do único quadro superior (foi vice-governador) do Banco de Portugal que foi exonerado pelo ministro das Finanças (Eduardo Catroga) e que não aceitou a reforma a que tinha direito. “Entrei para o banco em Fevereiro de 1992 e fui exonerado em Junho de 1994 na sequência do caso Banesto. Saí sem indemnização, sem pensão e sem emprego”, disse Bagão Félix ao CM.
As normas que regem as pensões de reforma do Conselho de Administração do Banco de Portugal têm, no seu ponto 4.º, uma “garantia de reforma” que estipula o seguinte: “O Banco de Portugal, através do seu Fundo de Pensões, garantirá uma pensão de reforma correspondente ao período mínimo de cinco anos, ainda que o membro do Conselho de Administração cesse funções, a qualquer título”.
As pensões atribuídas aos membros do Conselho de Administração do Banco Central são actualizadas, a 100 por cento, na base da evolução das retribuições dos futuros Conselhos de Administração, sem prejuízo dos direitos adquiridos, especifica o ponto 6 das referidas normas.
O ponto 7 regula a cumulação de pensões, consagrando a possibilidade de, “obtida uma pensão de reforma do Banco de Portugal, o membro do Conselho de Administração pode obter nova pensão da Caixa Geral de Aposentações [CGA], ou de outro qualquer regime, cumulável com a primeira”. No entanto, a parte da nova pensão correspondente aos anos de serviço que já tenham sido contados para a reforma concedida pelo banco deverá ser restituída.
Para além da pensão, os membros reformados do Conselho de Administração gozam de todas as regalias sociais concedidas aos administradores no activo (carro e cartão de crédito) e também aquelas dadas aos trabalhadores da instituição.
DOIS JAGUAR A CAMINHO
A frota de automóveis do Banco de Portugal é de fazer inveja a muitos ministérios. Os contratos de ‘leasing’ das viaturas têm a duração de três anos, sendo os modelos renovados após esse período. Recentemente, foi divulgado que a administração encomendou no passado mês de Dezembro seis nova viaturas; três Volkswagen Passat, dois Audi A4 e um Mercedes classe E. No entanto, o CM sabe que, a somar a estes estão também encomendados dois Jaguar que deverão ficar adstritos a directores da instituição. Recorde-se que, segundo um estudo realizado pelo ‘Central Banking Journal’, o Banco de Portugal é a terceira instituição de supervisão que mais gastos tem com pessoal em percentagem do PIB (0,08 por cento) entre os 30 países da OCDE, só superado pelo banco grego e islandês.
ALGUNS DOS REFORMADOS DO BANCO CENTRAL
Nome: Campos e Cunha
Cargo que ocupava: Vice-governador
Início da reforma: 2002, por cessação de funções
Valor da reforma: 8000 euros
Nome: Tavares Moreira
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18c
Início da reforma: 1 de Junho de 1999 – negociada
Valor da reforma: 3062 euros
Nome: Miguel Beleza
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18c
Início da reforma: 1 de Novembro de 1995 – negociada
Valor da reforma: 3062 euros
Nome: Cavaco Silva
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18b
Início da reforma: 15 de Julho de 2004 – por limite de idade
Valor da reforma: 2679 euros
Nome: Octávio Teixeira
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18a
Início da reforma: 1 de Dezembro de 2001 – negociada
Valor da reforma: 2385 euros
Nome: Ernâni Lopes
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18
Início da reforma: 1 de Setembro de 1989 – negociada
Valor da reforma: 2115 euros
Nome: Rui Vilar
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18b
Início da reforma: [n.d.]
Ocupa o cargo de presidente do Conselho de Auditoria
Valor da reforma: N.D.
Nome: António de Sousa
Cargo que ocupava: Administrador de nível I
Início da reforma: 23 de Fevereiro de 2000 – Regime dos Membros do Cons. Adm.
Valor da reforma: N.D.
Fonte: Correio da Manhã

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Num jardim a comer o rabo de uma gatinha...

Cuidado com os maníacos!
No caso apresentado de seguida o meliante estava num jardim a comer o rabo de uma gatinha...

Vejam a cara de felicidade e satisfação do tarado, que ficou completamente insensível à dor da pobre vítima:

Passem com o rato pela imagem abaixo para ver (pode demorar um pouco)!

Cuidado almas sensíveis! Podeis sofrer um grande abalo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

RETALHOS - A vermelhinha

Dos “duzentos paus” que a minha mãe me dava, por semana, e descontando os 110$00 que a CP cobrava por um bilhete militar de Viana ao Entroncamento (ida e volta), era com “noventa paus”, por semana, que eu tinha que me desenrascar para o tabaco, para as cartas e selos, e já pouco sobrava para as cervejolas.
Conhecia as dificuldades da vida, e era sabedor da luta, diária, que minha mãe, analfabeta, mas com um sentido arguto para o negócio, travava na sua loja de ferro-velho, para poder juntar “algum” para os dois filhos, que estavam na tropa, e, ambos, teimavam em vir a casa todos os fins-de-semana.
Nunca me aventurei em jogar à batota, por não ter muito jeito, por medo de perder o pouco pecúlio, mas também porque não tinha massa para arriscar. Alguns camaradas (sempre que o cabo ou sargento de dia, não estivesse por perto) aproveitavam as horas mortas para jogar à "lerpa" a dinheiro ou a tabaco. Os menos instruídos nessa arte jogavam ao montinho e os mais reguilas, das grandes cidades, mais habituados a levarem os outros por lorpas, arriscavam a jogar à vermelhinha. Eu arrisquei uma vez e serviu-me de emenda para toda a vida.
A vermelhinha era um jogo de cartas, da mais pura batota, e que ainda se vê, um pouco à socapa, por feiras e romarias depenando os incautos. Consistia em escolher uma dama de um naipe vermelho (daí o nome Vermelhinha), entre duas outras cartas de naipe preto. O jogador, batoteiro, mostrava previamente onde estava a dama e, depois de manipular as cartas com grande velocidade, convidava a vítima a tentar descobri-la. Para servir de isco havia sempre um cúmplice. Este jogava e acertava quase sempre e até nos “ajudava” quando o batoteiro fingia uma pequena distracção. Indicava-nos onde devíamos apostar, chamando-nos a atenção para o facto da dama estar marcada com uma pequena dobra num dos cantos. Ganhei a primeira vez, o que a mim, e a outros incautos, me levou a apostar mais forte de seguida. Mas joguei pouco.
O papalvo do Marques lá começou a jogar, tendo escolhido de imediato a carta marcada. Só que a carta marcada era afinal um Às de espadas! Como é que isto podia ter acontecido?
O Júlio Maia, colega mais antigo e por sinal também de Viana do Castelo, onde chegámos a trabalhar juntos numa fábrica de boinas, a CEDEMI – que para além de fornecer as boinas aos militares também era conhecida pela paixão e dedicação ao ciclismo - não chegou a ir á guerra, tendo se especializado na dobragem e manutenção dos pára-quedas, Na sua farda amarela imponente, depois de me deixar perder outra vez, chamou-me de lado e disse:
“- Zé, deixa-te dessas merdas, esse jogo é só para perder dinheiro. Ninguém ganha. Repara naquele “Pára”.” – Referindo-se de forma abreviada a um pára-quedista.
“ – Aquele tipo é o cúmplice, está ali para vos sacar a massa. Deixa-te de ser parvo e gasta mas é o dinheiro numas cervejolas que tem mais interesse. Anda daí, vamos ao bar. Esses gajos são uns filhos da puta, quando baterem com os cornos, em Angola, vão aprender o valor da amizade. Foge deles.” – disse o Maia.
E lá me explicou que naquele jogo era quase impossível alguém ganhar. Havia muitos truques que o batoteiro podia fazer, incluindo, naturalmente, o truque de, disfarçadamente, desmarcar o canto da dama, para marcar o de uma das outras cartas de naipe preto. O dito cúmplice do batoteiro, quando me deu a dica, sobre a marca, era mesmo no sentido de me “ajudar” a esvaziar os bolsos.
Aprendi a lição: no jogo da vida, ganha quem tiver amigos e cúmplices, que nem sempre são fáceis de descobrir. Na situação real de jogo, os ganhos afinal seriam partilhados com o amigo, que era, para efeitos de demonstração da «teoria da amizade» o seu verdadeiro cúmplice naquele jogo.
É evidente que, a maior parte das vezes, acabava tudo à batatada, num espírito “fraterno” em que ninguém, naquele quartel, se incomodava em acalmar os ânimos. Sempre achei que isso já fazia parte da instrução no sentido de nos brutalizar.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

RETALHOS - Irmãos de guerra II

Mais dois irmãos da guerra localizados. Podem acreditar, mas aqui o Simon Wiesenthal (minhoto), vai apanha-los a todos. E vão se a ver comigo, por terem andado tanto tempo, 33 anos, sem darem notícias.
Já somos 8, a saber:
José Marques, Cerqueira Ramos, Tino Martins, José Lima, Jorge Viana e Fiúza Casimiro.
E agora: Manuel Cunha e António Alves.

terça-feira, janeiro 17, 2006

RETALHOS - Corpos amputados II (fim)

Em Dezembro de 1961, cinquenta mil tropas indianas, apoiadas por blindados, artilharia, meios aéreos e navais, ocuparam militarmente Goa, Damão e Diu. Os 3500 militares portugueses e goeses tinham ordens de Salazar para lutar até à morte, tendo o ditador português comunicado que só esperava, como resultado do combate, "militares vitoriosos ou mortos". Ao contrário do que se esperava, as tropas Indianas ainda se depararam com a resistência de alguns militares portugueses, nomeadamente em Vasco da Gama, onde 500 militares, fortemente armados, obrigaram as forças indianas a combater.
Com o rebentamento da guerra, nas colónias portuguesas, era evidente o apoio que faltava aos militares em situação de guerra. Não se previram situações, tais como: a morte; a incapacidade; a pensão de sangue; a trasladação dos corpos; o aprisionamento ou a captura de militares em operações; o pagamento de vencimentos: a distribuição de correspondência; as licenças de férias, entre outras. Aqueles que sofreram graves mutilações, no teatro de operações ou em acções de preparação para o combate, constituem a face mais visível da Guerra Colonial e, em certo sentido, aquela que a sociedade portuguesa tem tido mais dificuldade em encarar. Assim, se foi constituindo um exército de deficientes, que não parou de aumentar, formado por jovens que, na força da vida, se viram amputados, cegos, com doenças internas graves, doentes da mente, com futuro incerto e que ainda hoje vemos alguns a vaguear nas cidades, vilas e aldeias do nosso país, como almas perdidas sem abrigo.
Foram considerados «inválidos». Muitos deles sofreram duplamente a sua deficiência ao se tornarem, durante muito tempo, um pesado fardo para as famílias. Os hospitais militares foram, no início, para muitos um refúgio, mas também o depósito onde os corpos amputados, os homens em cadeira de rodas ou os cegos, tropeçando, se mantiveram longe da vista da sociedade, porque, oficialmente, Portugal não estava, oficialmente, em guerra e a sua visibilidade poderia motivar interrogações incómodas, para o regime, sobre a realidade do que se passava nas frentes de combate.
Estava eu a conversar com o “Risotas”, sobre a guerra e perguntei-lhe:
- “E os nossos militares deficientes, que será feito deles?”
Pela primeira vez o vi com a voz um pouco embargada:
- “Marques, nem me fales nessa merda, prefiro ficar lá de vez”. – E acrescenta:
- “A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve.”
Na retaguarda, iam aumentando os caixões, daqueles cujas famílias tinham possibilidade de pagar a trasladação dos corpos (os outros foram, durante os primeiros anos, enterrados nas zonas de combate) e os feridos, que se acumulavam nos hospitais militares que eram pequenos, incapazes e não adaptados para os feridos em operações de guerra.
Poder vir a engrossar o exército de deficientes era o medo, que muitas vezes, me roubou o sono.

domingo, janeiro 15, 2006

RETALHOS - Irmãos de guerra

Ao fim de 33 anos, e depois de várias tentativas, consegui juntar seis antigos combatentes pára-quedistas e companheiros de várias jornadas em especial as vividas em teatro de guerra na então província ultramarina, hoje Republica Popular de Angola.
Unidos pelo espírito de sã camaradagem e autênticos irmãos da guerra como tantos outros que conheci e que gostava e tudo farei por reaver. Tal como Simon Wiesenthal, o sobrevivente do Holocausto, que
dedicou a sua vida a trazer perante a justiça criminosos nazis, vamos desenvolver todos os esforços para juntar estes homens que nas agruras da guerra, souberam cultivar a amizade e a fraternidade.
Para registo aqui ficam os nomes da primeira meia dúzia ( José Marques, Cerqueira Ramos,Tino Martins, José Lima, Jorge Viana (ausente) e Fiúza Casimiro

sexta-feira, janeiro 13, 2006

RECORDO AINDA

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

Mario Quintana

quarta-feira, janeiro 11, 2006

RETALHOS - Corpos amputados I

Como tantos outros meus colegas, nessa noite não preguei olho. Só me vinha à memória o acidente que despegou a vida ao militar que nos instruía e nos preparava para a guerra. Apesar de não termos presenciado directamente o acidente, e por falta de informação oficial, as vozes da caserna eram demolidoras e abalaram, um pouco, a nossa força mental, que vinha sendo cimentada desde o primeiro dia. Com o aproximar do sono, acercou-se uma estranha dor de cabeça, fruto da realidade acordada que fervilhava com as vozes da caserna, com o sono mal dormido a querer-se aproximar da barreira do som do pesadelo.
Nessa noite, recusava-me a dormir e lembrei todos os momentos: todos os sacrifícios; todas as lutas constantes para me conseguir superar e todo o suor, o sangue e as lágrimas vertidas. O problema de desistir, nesta altura, já não se punha nem o permitiam e, se a ida para a guerra era uma inevitabilidade, então só me restava olhar e seguir em frente.
Procurei aprender com os erros, e estes, em situações limite, podem retumbar em erros fatais. Aprendi que errar é uma experiência dolorosa (por vezes física e irremediável), é na frustração e no desconforto, inerente ao erro, que se fixa a memória da lição adquirida.
Muita coisa me passou pela cabeça nas noites seguintes. Durante o dia, o Curso de Combate absorvia-me por completo, ia adquirindo conhecimentos de forma a me preparar técnica e operacionalmente para a guerra. No fim da instrução militar, recolhia à caserna e, depois de um retemperador banho, aproveitava sempre para escrever à família, procurando sossegá-la fazendo o inverso do esperado, ou seja, era eu que a animava dando sempre, uma imagem mais colorida, desta minha estadia no serviço militar.
As minhas noites eram mal dormidas derivadas ao cansaço físico. Comparado com os meus camaradas não era tão forte, pois só conseguia superar as actividades, de ordem física, atingindo os limites das minhas reservas. Já mentalmente era forte e determinado, nunca desistindo, transmitindo força anímica aos colegas que, antes, me tinham ajudado.
A partir dessa altura, comecei a interessar-me pelas coisas da guerra e fiquei a saber das dificuldades sentidas pelas nossas Forças, no início da guerra em África, e que as Forças Armadas foram apanhadas impreparadas para fazer face à guerra, trazida pelos ventos que já sopravam desde os anos 40, nas colónias de outros países europeus.
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sábado, janeiro 07, 2006

RETALHOS - Preparação para a guerra III (fim)

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No retorno, cruzei-me com o Jorge, meu amigo de infância, que por ser “rodas baixas” ia na parte da frente do grupo e com o olhar me queria dizer:
- “Zé, se eles conseguem nós também vamos conseguir.”
Como sempre, o Jorge tinha razão, conseguimos esse e todos os que se seguiram. Nesta fase da instrução já não havia lugar a desistências, antes quebrar que torcer.
E alguns quebraram mesmo, como veio acontecer, num exercício numa zona de vegetação traiçoeira, em que se “brincava” às emboscadas.
De um lado, os supostos Turras, (designação que se dava aos combatentes dos movimentos de libertação em África) na pele dos instrutores muito experientes. Do outro lado nós, instruendos que andávamos a aprender a combater sempre num ritmo intenso, forjado no esforço físico e sacrifício, num ambiente muito próximo do perigo, da incerteza e do acaso.
Os “turras” com bala real e nós com bala simulada de madeira numa velhinha Mauser. Às duas por três deu-se o contacto, entre dois camaradas divididos pelo exercício mas irmanados na mesma causa. O “Turra” surgiu de repente, detrás de uns arbustos, provavelmente ainda extasiado pela guerra de onde tinha regressado há poucos meses, e procurou a luta corpo a corpo, no intuito de dar uma sova ao instruendo. Mas para mal dele e sofrimento de todos, a Mauser encostou-se ao peito dele e disparou-se, vomitando uma bala de madeira que lhe rebentou as entranhas. Foi atingido mortalmente um combatente acabado de regressar da guerra em Moçambique, onde tinha resistido e sobrevivido às mais perigosas operações de combate.
Para nós foi mais um tiro entre tantos, que cruzavam por cima das nossas cabeças e mal nos apercebemos da tragédia. Tudo continuou como se nada tivesse acontecido. A ordem era avançar sempre, pois são situações que podem surgir na guerra a sério e temos sempre que encarar, resistir e seguir em frente. O exercício continuou, revelando já que todos eram muito fortes psicologicamente, com concentração redobrada, mostrando, da pior maneira, que estávamos quase prontos para enfrentar situações de todo o tipo e seguir em frente cumprindo as missões necessárias em teatro de guerra.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

RETALHOS - Preparação para a guerra II

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- “Este curso de combate que agora inicia, terminará a 18 de Dezembro, a tempo de poderem ter alguns dias de férias junto de vossas famílias.”
Como o silêncio imperava, nem podia comentar nada com o Risotas, que ali estava ao meu lado direito, firme e hirto, naquela pose de soldado de chumbo que contrastava com a sua habitual boa disposição. Dei comigo a pensar novamente:
- “Puta de vida, nesse dia fará um ano inteirinho que vim a testes e fiquei apurado para Pára-quedista. Se soubesse o que sei hoje… não era o filho da senhora Maria que apanhavam cá.”
E lá continuava o Comandante…
- “Ficarão prontos a demonstrar técnicas de combate que garantam o movimento, a acção de fogo e protecção em segurança, demonstrando também técnicas de transposição de obstáculos e desníveis, e cursos de água com recurso a cordas e outros meios”.
Estávamos em posição de descanso - o que é uma treta, pois estar de pé com as pernas abertas mas sem as poder movimentar, braços atrás das costas mas sem os poder mexer, sem poder falar, coçar ou olhar para o lado. – não será nem uma posição confortável.
Quase ao fim de uma hora de discurso, acho que falava, falava mas já ninguém o ouvia. Até que, finalmente, mandou destroçar, dando de presente quinze minutos de intervalo, mas avisando:
- “Tudo o que aqui vos disse, vai ser exigido nos próximos três meses, não vos prometo tarefas fáceis. Vão ser levados ao limite das vossas possibilidades físicas e psicológicas” - terminou gritando:
- “INSTRUÇÃO DURA”
- “COMBATE FÁCIL “ - gritou toda a companhia a plenos pulmões
Depois desta prelecção, que mais não era que guerra psicológica de forma a disseminar ideias chave do que nos esperava, percebi claramente que agora iria ser a sério. Até que o Cunha, (o baixote com cara de cigano mas com uma energia incrível, mais conhecido pelo Braga, por ser duma freguesia (Palmeira) limítrofe a Braga, cidade dos arcebispos,) veio com a novidade:
- “Acho, pelo que me contaram, e pelo paleio do nosso capitão, que esta companhia vai bater com os cornos na Guiné. Aposto com quem quiser.”
- “Quem é que te enfiou essa merda na cabeçorra?” – protesto eu, pois a guerra na Guiné não era para brincadeiras.
- “Para além das baixas, a Guiné não interessa nem ao Menino Jesus” – tentava eu contrariar, como se ainda fosse dono de mim e do meu destino.
Sem darmos conta do tempo, (até acho que os relógios dos tipos não funcionavam bem) já chamavam por nós para a formatura.
- “Como estiveram a descansar ouvindo o nosso capitão, vamos gastar um pouco essas energias acumuladas no fim-de-semana” – dizia o nosso sargento.
Para petisco foi servido um crosse com uma dezena de quilómetros, de tronco nu na estrada que separava a Base Aérea Nº3 e o nosso quartel, lá fomos palmilhar estrada ao som do bater das botas militares, que iam aumentando de peso na proporção de metros percorridos, com o suor a incomodar e a arder nos olhos.
- “Esse cabrão nunca mais vira”- dizia o Risotas atrás de mim, pois quanto mais nos afastávamos, mais tínhamos que calcorrear no retorno.
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domingo, janeiro 01, 2006

A ti não...

Fecho os olhos para a vida
E pondero na minha amargura
Ouço tuas palavras,
Teus sentimentos
Em todas as pedras da rua!
Levanto-me desta cadeira
Que tanto conforto me consagrou…
Que me abraçou e acariciou
E em seu regaço onde chorei
Tantos minutos passei
Imaginando ser o teu.
Pego em mais um cigarro
Divago em cada inspiração
Revejo cada olhar,
Cada carta
Cada carência de afeição.
E hoje compreendo…
Fui forçada a entender…
Que só amando a mim mesma,
É que consigo viver.
Amo as gotas da chuva
Que banham meu coração…
Amo a minha filha,
Os meus pais,
Amo os meus irmãos!
Amo tudo, amo todos
Que habitam em meu coração!
Só a ti que me apunhalaste.
A ti é que NÃO.
Não guardo rancor…
Nem te concedo perdão!
Mas não quero, nem consigo
Absolver essa questão!
Agora que sei o que sinto.
Que escutei meu coração
Posso declarar veemente
- Tenho amor para toda a gente !
Só para ti é que NÃO!

Barbara Duarte

sábado, dezembro 31, 2005

RETALHOS - VIANA, Social & Cultural

A Revista Regional “VIANA, Social & Cultural”. Está a publicar os Retalhos em forma de crónicas.
Aqui deixo a capa da revista, se algum amigo interessado em subscrever a assinatura, a qual deve ser enviada para:


VIANA, Social & Cultural
Rua da bandeira, 597, 3º - Esq. Traseiras
4900-561 Viana do Castelo

vianasc@portugalmail.pt
martaacp@portugalmail.pt

Nota da redacção:
Num tempo de necessária reflexão polí­tica, a VS&C inicia agora a publicação das memórias de guerra de um ex-combatente, alguém que tem algo a recordar na sua vida e a ensinar ao seu país, José da Silva Marques, cuja colaboração bem vem na linha editorial desta publicação que é feita, em grande medida, num presente feito de memória, para um melhor futuro. De resto, à semelhança da nossa edição anterior. E porque nunca esquecemos nada! Na forma de ”tema de capa” desta edição de Dezembro de 2005, este trabalho terá a sua continuidade, mês após mês, nas próximas edições desta revista. Até lá, aqui ficam estes…

Obrigado a todos, José Marques

quinta-feira, dezembro 29, 2005

RETALHOS - Preparação para a guerra I

Musica em fundo: Ballad of The Green Berets


Depois de mais uma viagem numa noite interminável e atribulada, mas saborosa, de fim-de-semana, a meados do mês de Setembro de 1970 lá estou de novo no Regimento de Caçadores Pára-quedistas em Tancos. Quando dou comigo, encontrando-me em formatura na parada para nos ser apresentado o Capitão Gomes, comandante do Curso de Combate que visava fundamentalmente a preparação para a guerra. Segundo se contava, e eu vim a confirmar isso muito mais tarde, este oficial era um autêntico especialista no tipo de guerra que se travava em Angola, Guiné e Moçambique, aliás, como tantos outros que as forças Pára-quedistas tinham no terreno.
Para mim, que só ambicionava ser Pára-quedista, esta última etapa era perfeitamente dispensável para as minhas ambições. Ser Pára-quedista, ostentar com orgulho a Boina Verde e no peito o Brevete era o corolário do trabalho desenvolvido ao longo de quatro semanas e que culminaram no prazer de voar, de contemplar a terra tão pequena lá em baixo. É indescritível a sensação de paz e tranquilidade que o contacto com a natureza no seu estado mais puro nos proporcionava. É o voar com o silêncio e com a ausência de peso.
Até Ícaro se deslumbrou com a bela imagem do sol e sentindo-se atraído, voou em sua direcção, acabando por deixar a cera de suas asas rapidamente se derreterem e acabando por cair no mar - apesar de ser sem dúvida um deslumbramento, tal o domínio que se sente sobre a terra, pela sensação de liberdade e poder - não se pode perder o discernimento, pois aqueles segundos passam demasiado depressa e os procedimentos a cumprir durante o voo não permitem veleidades.
Dei comigo a pensar cá com os meus botões:
- “Caramba, afinal para ser Pára-quedista ainda preciso de fazer muito mais?”
Fui acordado destes pensamentos com o vozeirão do sargento que comandava a formatura:
- “COMPANHIAAAAA. SÉEEE… UP” (Voz de sentido)
- “DÁ LICENÇA MEU CAPITÃO… COMPANHIA PRONTA.
- “Mande descansar” – diz o Capitão Gomes
Com a cabeça em completa turbulência - mais parecia o Noratlas quando ligava os motores para me levar a voar nos céus do Arripiado - ia retendo algumas frases chave do discurso mobilizador que o capitão no seu (porte altivo apesar da imagem (falsa) que a sua cara de bonacheirão, que parecia transmitir) nos ia passando:
- “O curso de combate está pensado para dotar o Pára-quedista de competências técnicas e de tácticas de combate para o cumprimento das missões necessárias na guerra. “ – e continuava dando especial ênfase a algumas frases:
.../...

quarta-feira, dezembro 28, 2005

RETALHOS - As viagens de fim-de-semana III (fim)

Dizia o outro grupo dos “Páras”:
"- O nosso capitão obrigou-nos, a todos, a dormir nus, na parada, e depois obrigou-nos, ao pequeno-almoço a comer gafanhotos e grilos; ele é mesmo bom, esteve na Guiné, e parece que matou mais de cinquenta turras.”
Eu que já não suportava aquelas bazófias, comecei a remoer os castigos e reparos que apanhara nas seis semanas já passadas:
"- Levante essa cabeçorra, soldado Marques, endireite essa pala do boné, parece a de um ciclista".
“- Sabe para que serve essa pala, bem comprida, que você teima em lhe fazer uma bainha? Para olhar dela só para baixo e nunca da pala para cima” - vociferava o sargento.
“- Para cima estão os seus superiores, ouviu? Dez flexões para aprender.”
“- Meu sargento – tentava eu argumentar.”
“- Quinze flexões – respondeu ao meu esboço de argumento.”
Enquanto eu estava nas minhas reflexões e os outros continuavam com as gabarolices, um tipo que usava boina negra, como a da polícia militar, de forma educada, sem ser ofensivo, interpelou-os de forma pedagógica dizendo:
“- Porque é que vocês ficam tão satisfeitos com as sacanices que vos fazem?”
Num solavanco do comboio estalou uma confusão… já não bastava o cheiro a trovoada que pairava no ar, tinha que vir aquele solavanco servir de rastilho. Envolveram-se todos numa alegre batalha de murros e cabeçadas, insultos e palavrões, entre boinas verdes e vermelhas, com o feijão verde pelo meio, como sempre sem culpa nenhuma, a levar para tabaco, o que durou quase toda a viagem.
Virei-me para o Jorge, pois o Fuíza só o voltei a encontrar no quartel. “- Está tudo louco, vou mudar de carruagem.”

domingo, dezembro 25, 2005

RETALHOS - As viagens de fim-de-semana II


Mas foi sol de pouca dura. Quando dei por ela, era domingo e já estava de novo na estação. Ás 9:50, esperávamos o comboio que vinha de Valença e nos levaria até à estação de Campanha, no Porto. Uma viagem de 2 horas para fazer 70 km, onde nos esperava, um autêntico pandemónio, com a mudança de comboio que nos levaria ao Entroncamento. Um comboio, já a abarrotar de militares, esperava ainda pelos que vinham na linha do Minho. Era mesmo o desenrascanço à militar. Todos apinhados até à porta, mas os mais atrevidos entravam mesmo pela janela. Os revisores da CP, não se metiam com a maralha, era o salve-se quem puder.
Mais uma viagem Porto/Entroncamento, num domingo à noite, agora com o comboio repleto de militares. Sempre que não arranjava um lugar sentado (e nunca arranjava) ia mesmo deitado nas bagageiras superiores por cima das janelas ou nos preciosos cacifos à entrada da carruagem, com evidente prejuízo para as malas e bagagens. Como em Campanhã já os preciosos lugares estavam faustosamente ocupados, restou-me viver a experiência de dormir em pé, solidamente amparado pelos colegas que me acompanhavam desde Viana. Eles também estavam escorados por uma horda compacta de militares de todos os ramos, estando sempre em maioria os da Boina Castanha (Exército).
Como sempre, uma autêntica viagem aos infernos, de cinco horas, até ao Entroncamento. Na primeira hora, todos conversavam ou pelo menos tentavam fazê-lo, tal era a barulheira, mas momentos depois, rendiam-se ao cansaço de dois dias mal dormidos (os de suposto descanso). Para isso, o maralhal procurava o seu travesseiro que não era mais que o ombro do parceiro.
Quando se ouvia, de forma mais forte, o “pouca-terra” do bater dos carris, a experiência dizia-nos que se aproximava o revisor, para picar os bilhetes. Coitado do homem, levava mais de um hora, em cada carruagem, para cumprir, mal, a tarefa. Havia sempre quem o tentasse ludibriar. Passavam à socapa para lugares já controlados ou escondiam-se em tudo quanto era sitio. O certo é que o melhor lugar para fugir ao picar do bilhete, era aninhado no meio de um grupo, onde o possível contacto ficava à distância do comprimento do braço do revisor até ao visado. Perto de mim, para além dos militares do exército, iam dois grupos, barulhentos, um de mancebos de "páras" e outro de comandos, estupidamente a vangloriarem e a elogiarem o comportamento dos seus instrutores. Cada um deles, como desafiando o outro, parecia delirar de satisfação com as provações físicas e as humilhações sofridas naquela semana, infligidas por alguns fanáticos com patente.
"- O nosso tenente obrigou-nos a mergulhar a cabeça na imundice da fossa do quartel”. “- Ele é o máximo, tem o curso de não sei quê, e esteve na legião estrangeira " - dizia um comando secundado por outros

quarta-feira, dezembro 21, 2005

RETALHOS - As viagens de fim-de-semana I

Todos os Pára-quedistas ostentam garbosamente o seu brevete e em especial a famosa Boina Verde, que John Wayne imortalizou no filme “OS BOINAS VERDES”, com o título original: The Green Berets.
A apresentação do filme dizia: Os Boinas Verdes eram considerados como a força de combate mais valente sobre a face da Terra - as Forças Especiais de Elite, cuidadosamente escolhidas e treinadas para a guerra anti-guerrilha do Vietnam, como a Legião Estrangeira Francesa, na Indochina. Acrescento eu: ou como nos anos 60 Os Boinas Verdes Portugueses em África.
Foi na minha incorporação, que pela primeira vez, na história dos pára-quedistas foi estreada a farda azul, vindo substituir a bonita farda amarela. Mas a boina verde, essa não mudou desde 1955, mantendo-se como elemento de união da família pára-quedista.
Os "páras" granjearam a fama de militares de elite, não só pelas aparições públicas, mas também, e muito especialmente, porque para ser boina verde era e é necessário, percorrer um longo e duro caminho. O jovem candidato submetia-se às provas de admissão e só após o último salto do Curso de Pára-quedismo, passava a usar por direito próprio a boina verde.
Ainda hoje, este símbolo continua a atrair milhares de jovens que, das cidades, vilas e aldeias de Portugal, vêem nele algo que "mexe com eles".
No fim-de-semana, irradiámos de Tancos, para outros lugares, a nova farda azul com o brevete reluzente e a sua boina verde. Íamos para junto dos nossos familiares e partilhar, com eles, o que tão duramente tínhamos conquistado. A surpresa pela farda era notória, nas pessoas que connosco cruzavam, mas ao mesmo tempo mostravam respeito e admiração, provocando no nosso cérebro o martelar insistente do refrão habitual das marchas pára-quedistas:

Olhem bem, sintam respeito
Eles têm asas ao peito
Cabeça erguida, heróis do ar
Boinas Verdes vão a passar.

(Continua)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

RETALHOS - Da recruta até à boina III (fim)

Quando saí destes segundos que me trespassaram, dei por mim sobrevoando o Tejo e o campo de saltos do Arrepiado. Um barulho ensurdecedor aliviava-me o medo, olhei para os colegas e nem um sorriso de confiança, tal a concentração de todos. Lá ao fundo vislumbrei o Risotas, que mesmo com um sorriso amarelo me acalmou e me fez lembrar do “vai-lhe às fuças”.
Até que chegou a minha vez... finalmente o “já”, aquilo que tanto ansiava, a pancada confiante do largador nas minhas costas, atirou-me para aquilo por que tanto lutara... o salto... o esticão da fita extractora, foi como se alguém me tivesse dito: “acorda, conseguiste!” Ao mesmo tempo o vento a batia-me na cara, com carícias que nunca mais vou esquecer. Olhei para baixo e vi árvores tão pequeninas, que pensei que o chão ainda estava longe, mas qual quê, eram árvores do Ribatejo, muito pequenas. Aterrei da pior maneira, comendo terra lavrada e ainda tive que correr atrás do pára-quedas, qual barco à vela.
Apesar disso, o encontro com o solo foi uma experiência que queria repetir vezes sem conta. Claro que repeti, sempre com a alegria que só um verdadeiro Pára-quedista pode descrever... Seguiram-se mais cinco saltos e no último obtive aquilo que tanto esperava. Agora sim, era merecedor... Depois de tanta luta, tanto sacrifício, tanta lágrima caída, os instrutores, que tanto me tinham ensinado, sendo para mim exemplos a seguir, com ar orgulhoso, colocaram-me na cabeça o meu justo prémio... a Boina Verde! Uma luta contra as lágrimas que teimavam em cair-me, só provava que, somente quem passa por tão duras provas, lhe sabe dar o valor. Era minha e juntamente com ela, já erguia ao peito o meu brevete.

Era um Pára-Quedista, um Boina Verde!!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

RETALHOS - Da recruta até à boina II

Lá voltámos à temível torre de saltos uma e outra vez. Como a foto ilustra, eram quedas a 45º com embate violento, em que ninguém se magoava, pois bem treinados e preparados fisicamente, o corpo enrolava-se ao tocar no chão.
Tão martirizado pela intensidade dos exercícios e pelos vários embates a que era sujeito: cambalhotas no empedrado, crosses de botas calçadas, luta em que predominava o boxe, pistas de cordas onde queriam fazer de nós uns Tarzan’s, pistas vermelha e branca como meras toupeiras, cada vez me sentia com menos tempo para estar cansado. Ficava á mercê dos instrutores, mas nunca dos abutres. Já interiorizara que eles tinham razão e portanto nem em pensamento os questionava.
Instrução dura, Combate fácil, era o lema que nos norteava sempre. Pensava comigo:
- Vamos para a guerra? Então, há que prepararmo-nos como deve ser.
A semana dos saltos, há muito tempo almejada, tinha chegado, finalmente ia saltar.
- Para a semana serão os saltos – gritou o sargento de cima do palanque - vão finalmente dar corpo a estas semanas de treino intensivo e ganharem merecidamente a vossa boina verde e o brevete.
E gritando a plenos pulmões:
- INSTRUÇÃO DURA…
- COMBATE FÁCIL – Responderam forte, mas com emoção, as centenas de vozes dos futuros pára-quedistas.
Estas seis semanas de instrução reduziram-se a poucos segundos de forma vertiginosa no meu cérebro. O esforço, testado ao limite, o calor a bater no corpo, o suor a escorrer por cada milímetro da pele, o querer vergar pelo cansaço ganho a cada dia que passava, a voz austera, firme e sabedora do instrutor, o testar toda a energia física e mental, era superior a tudo o que eu julgava poder aguentar.
Não me sentia especial, nem diferente dos outros, era sim, um futuro pára-quedista!
A boina era ainda uma miragem, mas estava tão perto... iria consegui-la. Todos os instrutores estavam ali, em frente a nós, a incutir-nos na alma e no sangue o que é ser Pára-quedista... Tudo transpirava à tão falada mística dos Boinas Verdes. Senti o peso de um toro, travando com ele a teimosia de ambos. As calistenias, pareciam minutos intermináveis, mas cada gota de suor ali largada era para que o verde da boina fosse merecido. Os crosses, com os instrutores, que noutra vida quase de certeza foram lebres nunca derrubadas pelo predador, faziam com que no final pensasse que não existia oxigénio suficiente para me restabelecer de tal cansaço... mas foi mais um que concluí! A pista de cordas, cada vez que olhava para ela, só pensava que nada ali era fácil mas ia conseguir! A sensação de se mandar para o chão como se do avião estivesse a sair, fazia com que nesse instante, pensasse que poderiam vir os crosses, as calistenias os saltos da torre e tudo o mais, porque estava ali para ser aquilo que tantos queriam e poucos conseguiam! Realmente o sonho comanda a vida... e agora o sonho vai tomar forma, a forma da placa de embarque do Nordatlas com o seu som inconfundível, o azul do céu e para concluí-lo, os campos do Arrepiado ali ao lado do Tejo....
(Continua

sábado, dezembro 10, 2005

RETALHOS - Da recruta até à boina I

Concluí a recruta, com a Cerimónia do Juramento de Bandeira, sem a presença de qualquer dos meus familiares, pois a disponibilidade era pouca e os cobres não abundavam. A minha pobre mãe, para além deste rapaz, ainda tinha o meu mano velho, o Manuel Elpídio, no exército em Sacavém. Este, acabou por não ir para a guerra, mas sim, por passar os últimos dias na prisão, à custa de um episódio curioso que, bem lembrado, até dá para rir.
O Manel era casado, por via daqueles deslizes fortuitos entre namorados e quem o queria ver contente, era em casa, junto da mulher e mais tarde do fruto dessa relação que eu apadrinhei. Então vai daí, surripiou os passaportes de saída do quartel, autorizando-se a si próprio a ir visitar a família. Se juntarmos a isto, o facto de, enquanto cabo da guarda, ter permitido a saída do quartel, de colegas não autorizados, deu como resultado uns dias à sombra.
Ah valente mano, só por isso já valeu a pena, de entre os três irmãos que nós éramos, só eu ter batido com os costados na guerra.
Finda a cerimónia, gozei alguns dias de férias, que bem merecia, findas as quais e precisamente no dia em que o meu outro mano, o Fernando, fazia 15 anos, inicio a segunda fase da minha aventura, o Curso de Pára-Quedismo, para a conquista do almejado brevete.
O primeiro dia, confesso que não me agradou muito, pois começou logo pela vacinação contra a febre-amarela. Éramos umas centenas de recrutas alinhados e sentados no chão, já sem camisa, à espera do sacrifício. Passava o primeiro enfermeiro com um tabuleiro de algodões ensopados em tintura de iodo, com que desinfectava a zona onde seria dada a picada. O segundo, vinha com as agulhas e sem parar, espetava uma no sítio assinalado. O terceiro, trazia uma seringa enorme, que enroscava na agulha e comprimia o líquido, que rapidamente era injectado, provocando uma sensação muito dolorosa, agravada pelo terror às enormes agulhas. O quarto, passava com outro recipiente, retirando e recolhendo as referidas agulhas. Por último, um outro enfermeiro, com novos algodões molhados em tintura de iodo, fazia a desinfecção final para minimizar os efeitos da vacina, que provocava uma tremenda reacção deixando o braço quase imobilizado, e impedir a formação de um hematoma.
Assim, demos início ao primeiro dia, das três semanas em terra, com uma bateria de exercícios, especialmente duros, onde se privilegiavam os movimentos de braços, para que o corpo não "emperrasse”. A amostra do primeiro dia, não augurava nada de bom para o cabedal. O curso iria culminar com uma semana no ar, de forma a serem executados seis saltos em cinco dias, para finalmente podermos ostentar no peito, o brevete de pára-quedista.
Acho que nunca sofri tanto na minha vida, como nestas três semanas.
- Quem disse que o homem não chora? Puro engano, chora por amor e chora também pela dor. Senti que o meu arreganho, destemor e vontade de vencer, não chegavam. Valeram o espírito de corpo e os amigos. Destaco o Risotas, sempre com uma palavra de ânimo e coragem apesar do seu sofrimento.
Os exercícios eram desumanos e violentos demais para que, quem está de fora possa acreditar na sua execução. Os que eram feitos em especial com toros de madeira, eram de uma violência extrema, especialmente: os Alás, a Ama-seca, a Rosca, o Combinado, o Lançado e o Cumprimento.
Ao fim de cada sessão diária eu só dizia para o Jorge, colega da escola primária:
- A minha mãe não criou um filho para isto, vão para o raio que os parta
- Zé falta só um dia e vamos conseguir, depois do banho vamos ao bar e pago-te uma cerveja.
- Não brinques comigo pá, acho que ia morrer bêbado -dizia sem fôlego.
- Ai de ti Jorge, se contas esta merda em Viana, a minha mãe, coitada, tinha um chilique.
Ao longe passava um pelotão de novos recrutas, na maior bandalheira, com passos algo trocados. O Fiúza não se conteve:
- A figura que nós fazíamos pá, já pensaste que para a semana já vamos saltar?
- Como o tempo passa - atalhou o Jorge – alguém dizia: incha, desincha e passa.
(Continua)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Todos os ministros são inteligentes

Extraordinária peça escrita em 1867 que se mantêm actualizadíssima
“ORDINÁRIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porem, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política e expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?”

Eça de Queirós em 1867

domingo, dezembro 04, 2005

RETALHOS - Incha, desincha e passa II (fim)

Ao fim de três semanas, foi-nos concedida uma saída para podermos recuperar energias, visitar a família, os amigos e as namoradas. Quase todos partiram para as suas terrinhas, só quem morava para lá da serra do Marão, não se aventurou pois os dois dias de férias iriam direitinhos para a viagem.
Com a farda azul substituindo a velha farda cinzenta, apresentámo-nos em parada para um revista ao fardamento com todos bem alinhados, botas reluzentes, e com o bivaque altivo da aeronáutica bem aconchegado tentando tapar a careca. Surgiu finalmente a voz de comando mais ansiada:
- DESTROOOÇAR…
Como por magia só se via bivaques no ar a comemorar, como se tivesse acabado a vida militar e não um simples passaporte de fim-de-semana ao fim de vinte e um dias.
Foram dois dias que voaram num ápice. Às cinco da manhã de segunda-feira, estava de volta ao quartel pronto para novas batalhas. Mais de uma dúzia de recrutas aproveitou para não voltar mais optando pela deserção. Enquanto desfazia o saco da roupa lavada, que minha mãe tinha esmerado e acautelava o chouriço da ordem no armário, reparo no Covilhã (um recruta que era pastor na serra da estrela - daí a alcunha) com aquele porte físico impressionante de farda verde de instrução, deitado no chão, rejeitando a cama esmeradamente feita, completamente pronto para iniciar a recruta às oito horas e não resisti:
- Covilhã, para te deitares no chão deves estar maluco ou com saudades da serra e das ovelhas.
- O gajo está maluco – diz outro.
Responde o Covilhã com absoluta calma:
- Malucos estais vós! Prefiro dormir no chão e aproveitar este tempinho do que perder meia hora a fazer a cama. Logo mais, está na hora de ir dar cabo do cabedal.
Olhámos uns para os outros e quase todos seguimos o exemplo.
O tempo vai passando e o corpo acostuma-se à dor. Os nervos fintando as emoções e os desejos para responder apenas perante a razão. Braços treinados e cabeças frias perante a dureza da recruta.
Em finais de Julho de 1970, com o aproximar do fim da recruta, autocarros azuis da Força Aérea esperam-nos para uma visita de estudo à Barragem do Castelo de Bode e à Nazaré. Eis que surge a notícia há muito esperada principalmente por quem aguarda mudanças: a morte de Salazar. Depois de uma cadeira ter-lhe pregado realmente uma partida: queda, a cabeça a bater no chão, hematoma cerebral, bloco operatório, diminuição das faculdades mentais o que o levou a dois anos em agonia.
Depois de muito hesitar, Américo Tomás acaba por nomear Marcelo Caetano para a Presidência do Conselho de Ministros. Alguns, junto de Salazar, fingem que é ele ainda o Presidente do Conselho ou ele finge acreditar na encenação e, a fingir, lá vai dando despacho aos assuntos correntes. Morre a 27 de Julho de 1970, com 81 anos de idade e 42 de poder ininterrupto.
Estando a nossa escola de recrutas praticamente concluída e o pessoal devidamente fardado fomos aproveitados para irmos ao Mosteiros dos Jerónimos onde o ditador estava em câmara ardente, fazer a visita da ordem, na segunda metade da aprazada visita.
Cerca de duas semanas depois, terminei a minha recruta com aproveitamento, em 14 de Agosto de 1970.

sábado, dezembro 03, 2005

Uma vergonha que nos envergonha


Passados 160 anos de ter sido morto o ultimo português, surgem os paladinos da justiça e da democracia e executam o número 1000: Kenneth Lee Boyd. (Não gosto dos E.U.A.)

O duplo homicida tornou-se ontem o milésimo prisioneiro a ser condenado à morte desde que a pena máxima foi reinstaurada nos EUA, em 1976. “Esta execução é um marco de que todos deveríamos envergonhar-nos”, afirmou Thomas Maher, advogado de Boyd.

A decisão de abolir a pena de morte em Portugal – pela primeira vez na Europa – chegou tarde para Luísa de Jesus, a última condenada à forca, depois de ter morto 33 bebés. (Tenho honra em ser Português)

Chamava-se Luísa de Jesus, nome que mereceu destaque na História portuguesa. Não pela valentia dos actos, mas por ter sido a última mulher condenada à morte em Portugal. Depois dela outros morreram, todos homens, até que, em 1867, a pena foi abolida para os crimes civis. O País tornou-se assim a primeira nação europeia e uma das primeiras do mundo a extinguir esta forma de castigo.

Para a História fica o nome e a recordação macabra. Mas já nessa altura o povo começava a insurgir-se contra o castigo. Quando, em 1846, foi morto em Lagos o último português, há muito que a população pedia o fim da pena de morte.

terça-feira, novembro 29, 2005

RETALHOS - Incha, desincha e passa I

Depois do ataque às nossas cabeças com o barbeiro a ser o único homem capaz de elevar a sua cadeira da barbearia à categoria de um cadafalso ou mesmo à da terrível guilhotina, tal o sentimento descabelado que provoca nas suas “vítimas”, o dia a dia de uma recruta nos pára-quedistas sem ser um inferno, é sem dúvida terrivelmente duro em todos os aspectos.
É um embate tremendo esta alteração nas nossas vidas sob o ponto de vista organizacional. Quase todos os candidatos traziam expectativas erradas pelo fascínio do voo e dos saltos. Vínhamos pelo espírito de aventura e pelo deslumbramento de fazer parte de uma tropa especial, movidos por sonhos mais ou menos comuns de chegar até ao brevete, mas sem avaliar o percurso.
Regras e mais regras nos são impostas. Elas são-nos inscritas para sabermos com o que podemos contar, desde a primeira hora.
Depois de aprendermos a pôr os atacadores nas botas, a fazer as camas, a vestir, a arrumar os cacifos e com todos já fardados, ainda com os bonés de pala espetada da goma, marchando já a passo mais ou menos certo, o instrutor deu pela falta de um colega que se demorou um pouco mais na casa de banho, e logo gritou:
- Quando um falha, todos os outros pagam da mesma maneira. Dez flexões para toda a gente – enquanto cumpríamos continuou o sargento:
- Aqui senhores recrutas, não há lugar para o individualismo ou egoísmo. São uma equipa que têm de agir entre si. Por uma questão de sobrevivência e de respeito pela elite que vos espera, é assim que é e é assim que vai ser sempre no vosso futuro!

Nesta etapa, fazem-se novas amizades e cumplicidades salutares na acção e desta vez determinadas pelas alturas de cada um. O Martins (Risotas), minhoto de gema da Pousada de Saramagos, tinha mais um centímetro do que eu e portanto precedia-me na coluna. Por esse facto ele foi quase sempre meu colega de exercícios nas corridas, nas marchas e em quase tudo. Era por assim dizer o meu par.
O Risotas era a boa disposição em pessoa e daí a alcunha. Era um amigo a sério, sempre disponível em todas as situações. Devo-lhe a sua amizade e solidariedade nos momentos de maior pressão em que chegava a duvidar das minhas capacidades.
- Vamos lá Marques, esta merda incha desincha e passa - incentivava o Risotas.
Quando não o via com um sorriso malandro, era ele que estava em sofrimento e só lhe dizia:
- Vamos lá com essa merda pá, que raio de minhoto és tu? – ele esboçava um sorriso – como a dizer que não se queria dar por vencido.
Ninguém se deixa ir abaixo, mas os rostos ilustram bem o ar inexpressivo e obstinado de quem pretende vingar. O cansaço psicológico é mais duro que o físico. Estamos todos sempre na expectativa sobre o que se seguirá, a mente acaba por sofrer mais do que todo o resto.
Quando se está em formação no campo de instrução, uns arregalam os olhos para afugentar o choque resultante de um tratamento que nos escapa ao controle, outros erguem a cabeça, dispostos a não vergar. Todos compenetrados e direitos muito atentos às palavras dos instrutores que nos podem levar do céu para o inferno, em segundos, nunca se sabem as ideias que atravessam a mente dos duros e exigentes instrutores.
É tudo ou nada em termos de emoções, começa-se ali a formar o espírito de equipa, a cumplicidade com o Risotas alastra no pelotão. Tudo é novo para nós e por isso apoiamo-nos uns aos outros. Se um cai, caem todos. Se um vence vencemos todos. Na dureza dos exercícios, no peso das ordens e no imperativo das vozes de comando é este o nosso dia a dia.
A primeira semana é terrível pelo choque, pela violência no tratamento e pela dureza dos exercícios, logo se registam as primeiras baixas. Não é por acaso que nas primeiras três semanas ninguém pode sair de fim-de-semana e mesmo com essas cautelas alguns desistem, desertando para a emigração.
Os que ficam são os que aceitam com disciplina a voz rija que os dirige, bem diferente do carinho da família que ficou para trás. Estamos todos por nossa conta. Longe de casa e muito perto de descobrirmos uma realidade ainda desconhecida, boa ou má, mas que já nos marca para sempre. Integramo-nos com muito trabalho e determinação sempre lutando por vencer o medo.

(continua)

quinta-feira, novembro 24, 2005

RETALHOS - O famoso pente zero

Em 11 de Maio de 1970, apresentei-me em Tancos, no Regimento de Caçadores Pára-quedistas, para dar início à verdadeira aventura, que era o alistamento nas tropas pára-quedistas, frequentar a escola de recrutas e ir por aí adiante até conquistar a célebre boina verde e o brevete.
Chegámos por volta das cinco e meia da manhã, depois de uma viagem turbulenta de sete horas num comboio, procedente do norte, superlotado só com militares. Do fim-de-semana chegavam ao Entroncamento, de vários pontos do país, militares do Exército, da Força Aérea e os Pára-quedistas às centenas.
Um grupo de pára-quedistas esperava por nós à porta de armas, para nos acompanharem às instalações. Na entrada do quartel e de forma imponente lá estava a estátua que simbolizava um Pára-quedista vindo dos céus. Todos os militares eram obrigados a “bater a pala” em sinal de respeito, nós feitos “maçaricos”, limitámo-nos a olhar com respeito
Depois das apresentações a cerca de duas centenas de candidatos a recrutas, os três amigos foram colocados no 7º pelotão da 1ª Companhia. O facto de continuarmos sempre juntos tem uma explicação simples: quando pela primeira vez, em Tancos nos mandaram formar, ficámos juntos mais por instinto de defesa que outra coisa preconcebida e assim nos foi atribuída numeração seguida. Por via disso e durante 40 meses, andámos sempre próximos.
Formámos na parada. Distribuíram a cada um o kit de fardamento com 32 peças e logo o oficial destacado avisou:
- Senhores recrutas, acabou de vos ser distribuído um kit de fardamento, composto por 32 peças, para iniciarem a vossa vida militar. No fim do serviço militar, demore este o tempo que demorar, têm que devolver todas as peças para fazerem o respectivo espólio.
Depois de uma pausa continuou:
- O nosso Sargento vai acompanhar-vos e ajudar nas tarefas que se seguirão, deixo-vos com ele.
Notou-se algum agrado na forma educada como nos tratou o Capitão, isso era visível em cada um de nós.
- COMPANHIA!!! – soou o vozeirão do sargento. Isto está uma bandalheira, eu quero toda a gente agrupada por pelotões na próxima formatura.
- Têm meia hora para arrumar o kit que vos foi distribuído e regressarem já equipados de ténis, calção e camisola branca – gritou o sargento.
- Vamos depois fazer uma visitinha que se vai prolongar por toda a manhã.
Apesar de inebriados pela simpatia do capitão, veio o reverso e acordámos com este vozeirão do sargento, como que a alertar que a tropa começaria naquele momento.
E começara mesmo, acabaram as palavras simpáticas com que até aí sempre nos tinham brindado, a bandalheira na formatura como naquele dia, acabara a roupa civil no quartel e estava quase certo que também iria acabar o cabelo daqueles jovens cabeludos de uma época de ouro, a dos anos 60, que ainda hoje falam dela com evidente orgulho.
Numa tremenda confusão cerca de 200 recrutas rapidamente mudaram de roupa e como se veio a confirmar fomos ao nosso amigo e famoso pente zero.
Pela primeira vez na minha vida e em 5 minutos, vi-me despojado do cabelo até ao casco e o surpreendentemente já não nos reconhecíamos, mais parecíamos almas penadas. Apesar do tempo quente ou talvez por isso, sentia-se na barbearia um cheiro esquisito, era o cheiro a carecada que eu acabei por testemunhar ao longo de 40 meses mais de uma vintena de vezes.
Desta vez senti-me nu, espoliado e violentado com esta carecada higiénica. Senti-me mais frágil, mais despido e já com saudades do que tinha ficado para trás: os colegas de trabalho, os amigos e como não podia deixar de ser a namorada. Mal cheguei à caserna fui ao saco e desencantei um bloco para escrever para ela e para a famelga.

Aproveitei para tirar, no interior da caserna, umas fotos comigo já fardado de Mauser e capacete de guerra, mas com ar apalermado. Como se não fosse ter milhentas oportunidades de tirar esses retratos sem ser a fingir. Enfim… devia ser efeitos da anestesia que a carecada me provocou.
Na época dos cabelos à Beatles, o famoso pente zero produziu em nós efeitos anormais, ficámos todos estranhos e quase não falávamos uns com os outros. Aproveitei para ir dormir bem cedo, descansando das últimas 24 horas que quase me derrotaram, mas um pensamento não parou de martelar a minha cabeça desprotegida: “Lindo começo este!”.

segunda-feira, novembro 14, 2005

RETALHOS - Embarcar para a aventura II (fim)

Depois de uma manhã dedicada aos testes físicos, lá fomos para o refeitório onde registei como primeira nota e que me agradou sobremaneira o seguinte: além do regime militar dos Pára-quedistas ser duro, exigente, com uma disciplina férrea, e apesar de vivermos num período salazarista-fascista, ali respirava-se democracia. A comida que era distribuída ao recluso ou ao recruta, era exactamente a mesma para o resto das patentes, fosse comandante ou ministro.
Com o sol a pique, logo nas primeiras provas começaram a vir ao de cima algumas particularidades, sobressaindo dois grupos distintos. Os que tinham a ver com força física bruta... desde o trabalhador agrícola ao que trabalhava nas obras e até na estiva, o trabalho exigia-lhes apenas força física e pouco mais, tinham poucos conhecimentos, só a escolarização e aprendizagem até á idade escolar primária e muitos deles sem a completarem. O outro grupo tinha a ver com menos força física, mas mais destreza, habilidade e inteligência. Estes eram aqueles a quem eu chamei de putos da rua, os reguilas habituados às espertezas, aos narizes esmurrados e algumas cabeças partidas mas que levavam a melhor.
Nós, para além do Fiúza que vinha das fainas de mar sendo uma força da natureza e muito combativo, éramos putos da rua.
- Zé, já viste nas que nos metemos? São só brutamontes – disse o Jorge.
Aproveitei para lhe devolver o incentivo, com um sorriso descolorido dizendo-lhe.
- Pá, se eles conseguem nós também conseguiremos.
- Jorge onde é que eu já ouvi isto? – Disse o Fiúza com ar de gozo.
Lá fomos dando cumprimento ao programa, com corridas, saltos, passagem de obstáculos e outros que tais, onde eu me sentia como peixe na água.
Há três aspectos que me marcaram: a força física, a inteligência e a coragem.

A força física
Nunca me tinha passado pela cabeça o difícil que era elevar o peso do nosso corpo, só com a força dos braços numa barra de aço suspensa.
- Tudo lá para cima minhas meninas, ou pesa-vos o rabo – dizia o instrutor.
Eu não sei o que pesava, mas subindo à força de braços, esgatanhando ou trepando eu tinha que chegar lá acima cinco vezes.

A Inteligência
Apercebi-me dessa importância numa das provas quando às tantas, gritou um sargento nada barrigudo e com um porte físico de respeito:
- Vai toda a gente junto daquele caixote tirar um par de luvas e regressar aqui imediatamente.
De terra batida onde o cascalho abundava, lá fomos nós mostrar a nossa agressividade. Tocou-me em sorte, uma rapaz alentejano que pesava bastante mais do que eu. Comecei então a enfardar porrada, mas ia sempre à luta, quanto mais enfardava, mais ganas e vontade me dava para ir para cima dele.
- Alto lá, parem! – Avisou o instrutor.
Depois virou-se para mim, talvez com um misto de pena por estar a levar uma boa dose, mas também com admiração pela valentia, e apontando com o dedo espetado para a cara do opositor, gritou-me:
- Que adianta a valentia se não está a ser inteligente.
- Vês, aqui a cara deste chaparro todo contente? É aqui que tens de lhe bater. Aqui!
- Olhos bem abertos e vai-lhe às fuças sempre que lhe vires a cara destapada.
Claro que a partir daquele momento tudo mudou, deixei de ser eu a enfardar. A partir dali, toda a valentia e confiança do amigo alentejano se esfumou, acabando por se acobardar e encolher. Isto levou a que fosse eliminado.

A Coragem
Partimos para o último teste só com treze resistentes para o temido salto da torre. Todos alinhados para ver um salto de demonstração. Quando vimos um pára-quedista subir a uma torre enorme, preso por uma corda e lançar-se para baixo… um friozinho subiu pela espinha acima não deixando ninguém respirar até a queda se consumar. Os cabos retesaram-se, a cerca de um metro do solo, levando o Pára-quedista a manter os membros completamente firmes colados ao corpo, para no momento do choque não virar espantalho e lesionar-se gravemente.
Lá fui subindo, com as pernas trémulas de “coragem”, até ao patamar superior e em posição de salto lembrei-me do conselho do instrutor de boxe: “olhos bem abertos e vai-lhe às fuças”. Ao sinal atirei-me com os olhos bem abertos para o espaço, recusando-me sempre olhar para baixo. Só houve um colega que não conseguiu saltar, já em cima da torre entrou em pânico e gritou:
- Nãoooooooooo, não consigo! Não…
De facto o temível salto da torre, mete mais respeito que saltar de um avião.
Coincidência ou não, apenas metade dos que passaram nas provas médicas foi apurada.
Foi assim que nós, os três amigos, ficámos apurados para as Tropas Pára-quedistas em 18 de Dezembro de 1969, ficando eu com o Nº 1626/69.

quarta-feira, novembro 09, 2005

RETALHOS - Embarcar para a aventura I

Em 12 de Dezembro de 1969, em Itália, ocorre o "Massacre de Estado": bombas colocadas por fascistas, e manipuladas pelos serviços secretos italianos que praticam a "estratégia da tensão" (o que só se soube anos mais tarde), explodem na estação de Milão, matando várias pessoas. O anarquista Pietro Valpreda é acusado e preso por dois anos, injustamente.
Cinco dias após estes acontecimentos, lá estava eu na estação dos Caminhos-de-ferro em Viana, pelas 22 horas, para embarcar na aventura de fazer 300 km em cerca de 7 horas.
Tinha sido convocado para prestar testes nos pára-quedistas em Tancos. Tancos é uma freguesia de Vila Nova da Barquinha, situada no centro do país, com uma população civil de cerca de 600 almas, onde para além do Entroncamento que deve o seu nome ao facto de aqui entroncarem duas linhas de comboio: a que liga Lisboa ao Porto, e a que liga a Linha do Norte a Espanha, surge situado numa pequena ilha escarpada, no curso médio do rio Tejo, o Castelo de Almourol que é um dos monumentos militares medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista, sendo, simultaneamente, um dos que melhor evoca a memória dos Templários no nosso país.
Lá chegámos por volta das 5 horas da manhã, 50 candidatos a pára-quedistas de vários pontos de país, cansados da viagem mas também excitados pela aventura. Ficaram todos à conversa, todos com histórias para contar. Sentia-se ali um misto de basófilas e valentões e eu lá pensei com os meus botões: onde é que me vim meter? Acabando por comentar com o Fiúza pescador:
- Pá, já viste isto? Acho que não pertenço a esta guerra, só marados e cabeludos.
Então debaixo daquela calma enervante diz o Jorge Viana:
- Tende calma, não há-de ser nada, se eles conseguem… nós vamos conseguir.
E pensava eu que era um puto reguila da rua. Comparado com os tripeiros da banharia, alfacinhas e outros, até me sentia meio envergonhado.
E quase sem darmos conta, toca o clarim de alvorada e como uma mola todos nos levantámos pensando que era para nós. A partir desse momento, acho que as pulsações subiram para a centena e por lá permaneceram, durante todo o dia. Enquanto isso, os militares “verdadeiros” lá se preparavam para a formatura e para mais um dia de instrução militar.
E lá fomos nós também para a parada, bem desalinhados como convêm para irmos ao pequeno-almoço. Depois disso sim, aí é que foram elas. Pois na parada avisaram que íamos ter toda a manhã para exames médicos e de tarde para a parte física, e logo comentei:
- Não fizerem já isso no verão em Viana?
E atalha logo o habitualmente calmo e pacato Jorge Viana:
- Em Viana exames médicos para ir para a tropa? Tás maluco, lá só foi para mostrar os tomates e ir para a lista dos apurados. Não resistimos a uma sonora gargalhada.
Como é norma ficámos todos nus toda a manhã, mas agora com uma simples diferença: estava um frio de rachar. Todos bem alinhados e virados contra uma parede. Lá chegaram os tipos de bata branca com um marcador preto na mão dizendo ao colega mais próximo, mas desta vez com educação:
- Levante o pé se faz favor!
E nós apesar de nos sentirmos como simples cavalos para ver os cascos, a forma educada como fomos interpelados, desarmou-nos. E lá foram eles fazendo algumas cruzes nas plantas dos pés e eu sem perceber patavina. Chegou a minha vez, analisaram e deixaram uma cruz num deles o que me deixou ainda mais confuso. Mais tarde vim a saber que também tinha os pés um pouco “chatos” mas com o resto estava tudo bem. Entre medições, auscultações e pesagens, começaram a excluir os casados, quem tinha problema de dentes ou varizes e sei lá mais o quê, só sei que nos testes físicos reprovaram metade, sobrando para a parte da tarde 25. Na ida para o almoço um pára-quedista que por lá andava e com ar de “peito inchado” foi avisando:
- Da parte da tarde nas provas físicas, “vão de vela” mais metade.

(Continua)

quinta-feira, novembro 03, 2005

RETALHOS - Não ouvem suas merdas I

Estávamos em Julho de 1969, quando o astronauta Neil Armstrong bem lá em cima na Lua, dizia aquela famosa frase: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" e eu cá em baixo com os meus quase 20 anos e com um calor abrasador, vou, estupidamente, todo pimpão, a uma Junta Distrital (obrigatória) de Recrutamento Militar em Viana do Castelo.
Estávamos todos no átrio, rapazes de todas as classes e origens. Do rapaz pobre da urbe (como eu), ao filho de boas (ricas) famílias, que envergonhados por não pertencer à maioria (a pobreza abundava por estas regiões), refugiavam-se num canto. Dos vulgos saloios das aldeias e das serras, de ceroulas e chancas no verão, até ao filho do abastado agricultor.
Entrámos e um sargento do exército, logo berrou com aquela voz de suposto macho latino:
- Todos em bicha.
Claro, que já havia bichas nessa altura, mas o estúpido sargento, era assim que nos mandava enfileirar para sermos observados. Eu disse observados? Nada disso… era só para darmos o nome e alistarmo-nos, para a guerra colonial em África. Mas para quê observar? Se aproveitavam tudo e todos e ainda eram poucos.
E lá ia vociferando aquele animal fardado:
- Não ouvem suas merdas, é assim que querem ser militares?
Ouvem-se vozes em surdina entre os reguilas de pé descalço cá da urbe:
- Quem pensa que é esse filho da puta?
Ninguém teve a coragem de levantar a voz para aquela barriga fardada. Lá nos pesaram e mediram, sempre nus, não sei porquê, pois aproveitavam coxos e marrecos e tudo o que viesse à rede. Quem não quisesse, que fugisse de assalto para a França como tantos outros.
Depois de todos estes procedimentos, deram-nos uns impressos para preencher, se não quiséssemos ir para o exército, poderíamos escolher entre a Marinha e a Aeronáutica. O gajo afinal era nosso amigo! Até nos sugeria outras opções! Nada mais falso, o que eles queriam eram voluntários para tropas especializadas a que hoje vulgarmente chamamos: “Forças de Intervenção Rápida”.
Nessa altura ainda me martelava nos ouvidos “Não ouvem suas merdas? É assim que querem ser militares?” e foi com isso a zurzir nos ouvidos, que tomei a minha primeira grande decisão e disse para o Jorge meu colega de muitas lides desde a escola primária:
- Militar, como ele não vou ser de certeza, vamos para a marinha Jorge?
Respondeu-me de imediato o Jorge:
- Estás maluco, eu nem sei nadar!
E do outro lado do trio, disse o Fiúza o pescador:
- Vamos Zé? Eu vou inscrever-me para a Marinha.
Estas posições opostas, de dois amigos de infância, baralharam-me as contas, pois fazia intenção de irmos os três juntos para a tropa.
Então, sem lhes dizer a verdadeira razão, pois para mal dos meus pecados também não sabia nadar, disse:
- Nada disso, vamos para a Força Aérea e o culpado é aquela barriga fardada, não quero ir para o Exército.
E foi assim, que me inscrevi na Força Aérea. Como dentro desse ramo das forças armadas havia pára-quedismo e putos da rua como nós ávidos de aventura, vai daí… alistámo-nos, os três amigos, nas Forças Pára-quedistas.
Assim, tomei uma das minhas decisões mais importantes, a qual, iria marcar positivamente o resto da minha vida, quer pelo espírito de grupo e camaradagem, quer pelos ensinamentos que fui recolhendo ao longo de 40 meses de serviço militar, onde o lema era: “Que nunca por vencidos se conheçam”.
Mas a parte estúpida desta crónica, foi o que aconteceu a seguir. O grupo oriundo das aldeias e das serras, munindo-se de bombos e pandeiretas, foram tocando e bebendo ainda mais, pelas ruas como quem ia para uma festa muito importante, quando muitos deles acabaram por perecer na guerra.
Só passados uns bons meses, é que eu percebi e interiorizei o sentido e as motivações com que eles no fim da inspecção militar iam festejar pelas ruas, como o anunciar de uma festa ou romaria. Era provavelmente um grito de libertação, por saírem do mundo atrasado e das aldeias em que o ditador Salazar nos tinha deixado.
Sempre que me lembro disto, lembro-me, simultaneamente dos mortos da guerra, da carne para canhão em que eles se tornaram…
Descansem em paz.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Viagens pela Internet

Faz agora um ano que deixei de ser um trabalhador no activo pois no entender da minha médica devia descansar e, ainda, segunda ela, devia requerer a minha aposentação o que se acabou por se concretizar. É verdade que na minha actividade profissional e que se resumia á área do planeamento e programação, profissão essa que desenvolvia numa empresa de construção naval http://www.envc.pt/. era um trabalho extremamente exigente e cansativo do ponto de vista mental, pois lidar com cálculos matemáticos, planeamentos e programação numa área tão complexa como é a construção de um navio. Tanto mais que não tendo qualquer formação académica, o que só por si me obrigava a estudo e esforço redobrado.
Por não ser menos verdade também tenho que referir que, pesou mais nesta decisão o facto de trabalhar e descontar para a Segurança Social á mais de 42 anos e pelo meio ter prestado serviço militar em África
Neste último ano tenho dedicado bastante do meu tempo a estas viagens pelo mundo na Net, a que se convencionou chamar blogosfera. Primeiro nos chats para discutir um assunto específico, bater papo, fazer amigos conversar tendo com isso estabelecido algumas relações sérias que ainda se mantêm e depois passando para os blogs.
No mundo dos blogs encontramos escritores, amantes de animais, donas de casa, experts em informática, profissões liberais, web-designers e muitos jornalistas e professoras. A variedade dos temas é sempre rica: de amores e paixões à literatura, passando pelas notícias de informática e de ajudas e análise do país e do mundo. A grande vantagem é ser um território livre, onde se escreve (e publica) o que se quer.
Para mim o blog é para dividir coisas que descubro na Internet e não só, além de curiosidades do quotidiano e do dia-a-dia do mundo doido em que vivemos.
Tenho de facto conhecido muita gente de variados extractos sociais e formações académicas que muito me tem enriquecido e que vão desde uma costureira a uma jurista, de um serralheiro a uma arquitecta, de uma estudante a uma psicóloga. E o que noto em todos eles ou elas é que são carentes de variadas coisas e formas e isso é mais nítido nos chats ou nos vários mensageiros que aí proliferam onde as conversas são em tempo real.
Penso que as pessoas que procuram a Net para conversar, é porque estão carentes e solitárias e quando tem afinidades e se identificam com os amigos virtuais demonstram o que sentem como se estivessem a falar para dentro deles próprios, sendo nós como um refúgio uns dos outros.
Todos os que me conhecem melhor, sabem que eu por natureza gosto de ajudar seja no aspecto profissional, pessoal, familiar e também aqui porque não? Se tudo o que vou aprendendo tem sempre algo de alguém que também em ensinou.
Portanto… enquanto tiver alguém que me queira aturar, cá continuarei conhecendo novos amigos, adquirir conhecimentos e também tentando publicar sempre alguma coisinha.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Carta de despedida

Do Centro Nacional de Pensões:

Informo V. Exa. Que, no uso da competência delegada pelo Director deste Centro, o requerimento de pensão oportunamente apresentado foi DEFERIDO ao abrigo da legislação em vigor

A pensão tem início em 2005-09-01

E foi assim que terminou desta forma telegráfica a minha situação de trabalhador no activo desde Maio de 1964 a Agosto de 2005. Quarenta e dois anos de carreira contributiva a que somam mais dois anos a 100% de Serviço Militar em teatro de guerra como Tropa Especial e que hoje se chama Forças de Intervenção Rápida.
Tudo somado perfaz 44 anos de contribuições para a minha aposentação em que a fatia maior do bolo, pertence sem dúvida à minha ultima empresa
www.envc.pt onde lá labutei desde 1966 até à presente data.
Não vou dizer que deixei lá amigos, direi antes, e por ser verdade, que tenho lá muitos e bons amigos desde a senhora da limpeza (D. Conceição) que lá vinha invariável todos os dias, limpar a minha secretária até ao Director de Produção (Engº Vitor Lemos).
Vi sair e entrar muita gente desde o patrão Dr. Jaime Lacerda, hoje Vice-Presidente da
www.aip.pt até ao mais humilde funcionário. Com todos eles privei sem distinções, com estima e muita consideração como camaradas que eram do mesmo barco.
Procurei contribuir sempre com os vindouros, passando-lhes alguma da minha muita experiência bem como algum do meu pouco saber.
No plano social e no tempo certo não me escusei a dar contribuição durante algumas décadas, quer no âmbito sindical ou desportivo.
Se alguma vez não consegui ser tão prestável como desejaria, também somos humanos e sujeito a falhas, mas uma coisa é certa e indesmentível, coloquei sempre os superiores interesses da empresa (a empresa somos todos nós) acima de tudo, mesmo que isso em certas alturas não fosse politicamente correcto.
Vou terminar como comecei com uma citação, desta vez minha, de um excerto de um artigo que escrevi há muito tempo na revista da responsabilidade dos trabalhadores da Roda Leme (aproveito para felicitar o seu director, Gonçalo Fagundes)

Confesso que não entendo que uma empresa que cumpriu sempre com as suas obrigações para com os trabalhadores, seja levada à barra dos tribunais por não conseguir cumprir o acordado e que se resumia a menos de meia dúzia de Euros. Foi nesta empresa que me fiz homem e cidadão e penso, que me desculpem, que isto não deveria acontecer, quem nos representa procedeu mal

Bem-haja a todos e um abraço

José da Silva Marques
Serviço de Planeamento

quarta-feira, outubro 26, 2005

Há greves e greves

Sinceramente e com todo o respeito, não consigo entender esta greve dos juízes. Se há greve é porque há litigio, e se com os juízes em greve, quem aplica a justiça?
A resposta a essa questão poderá ser anedótica e ser algo como: quando levantarem a greve; mas como estamos habituados a longas esperas, e se formos abastados, com a cumplicidade de advogados bem pagos, até se conseguem umas prescrições.
Se está em causa a independência da juízes, então que se levante o povo e se coloque ao lado deles numa greve geral por tempo indeterminado, pois sem a independência deles não há democracia. Será uma questão nacional a ser defendida com unhas e dentes.
Mas salvo melhor opinião, não me parece que seja isso que está em causa, mas antes, as sempre antipáticas percas de regalias, de passarem a ter “apenas” um mês de férias como toda a gente sem excepção, de passarem a ter “apenas” um sistema de apoio á saúde como tem todos os servidores do estado, incluindo o Presidente da Republica ou Primeiro Ministro

Termino dizendo: isso não prestigia a justiça nem os juízes e alem de feio é lamentável

quarta-feira, setembro 14, 2005

A revolta dos militares

As associações representativas dos militares pediram ao Presidente para "tomar uma posição" face às propostas do executivo destinadas a aproximar o estatuto dos militares ao que vigora para os outros corpos da administração pública.
Tanto quanto se sabe, na prática os militares podem até reformar-se aos 50 anos. Isto, porque podem pedir para passar à reserva ao fim de 20 anos de serviço (em que podem usufruir de bonificações de tempo, como é o caso dos pilotos aviadores) e passados cinco anos ganham o direito de passar à reforma. Durante o período de reserva, os militares recebem uma pensão e usufruem dos direitos inerentes à condição militar (assistência médica, etc.) ao mesmo tempo que podem ter outra carreira profissional civil.
Concordo plenamente que o PR tome uma posição sobre isto. Situações deste tipo, e na situação que o país se encontra, devem ser alteradas, aproximando-as ao resto do administração pública.

terça-feira, setembro 13, 2005

Alunos interrompem cena de sexo em sala de aula

Ao abrir a porta de uma sala onde iria decorrer uma aula, um grupo de alunos de uma escola profissional de Felgueiras nem queria acreditar no que acabara de interromper: uma alegada cena de sexo, entre um director e uma professora do estabelecimento de ensino.
Já decorre um inquérito que pelos vistos não será tanto para saber se os factos se confirmam, mas para apurar as fontes da sua divulgação.
Claro que isso devia ficar dentro da escola, mas qual será mais grave? O que aconteceu onde supostamente se deviam formar pessoas, ou a infantilidade de trazer isso cá para fora.
Não confundindo a árvore com a floresta, é deveras lamentável

sexta-feira, setembro 02, 2005

Magníficos idosos

Actualmente envelhece-se mais devagar do que dantes. A Terceira Idade (fala-se já na Quarta Idade) principia aos 75 anos, o que significa ter-se ganho uma década de vida. Quem trabalha com o cérebro, como os intelectuais, sofrem menos o desgaste do tempo do que, por exemplo, os operários.
A Morte é, aliás determinada, medicamente, pela paragem do cérebro, não o do coração.

Ao contrário do que se afirma, o tempo não afecta as nossas capacidades cerebrais, apenas as torna de velocidade mais lenta. Atente-se, por exemplo, na quantidade de inventos que são concebidos por pessoas de mais de 70 anos. Na era da informática que vivemos, tanto faz. Para accionar botões ou teclas, ter 18 como 80 anos é igual.
A idade cronológica de uma pessoa não tem, por outro lado a ver com a sua idade biológica. Não detemos a mesma idade em todo o corpo, as minhas mãos, o meu baço, as minhas pernas não apresentam a mesma duração, uns órgãos são mais velhos que outros (Almerindo Lessa), gerontologista de projecção internacional.
Nos Cárpatos, nos Andes, e noutras zonas de montanha encontram-se aldeamentos com centenas de centenários. É uma questão de alimentação, de comportamentos, de genética. Nas grandes cidades começa-se a verificar o mesmo fenómeno. Em Paris, há mais de mil indivíduos com idade superior a 100 anos e ainda activos.
Em Portugal existem, segundo estatísticas, 21800 nonagenários, 16.250 mulheres e 5550 homens. Os Açores apresentam 1960 indivíduos de ambos os sexos nessa faixa etária. Com mais de meio século registam-se no país 560 mulheres e 188 homens.
Emídio Guerreiro, era o “ex-libris”, cuja imagem de revolucionário romântico e elegante encheu o imaginário de gerações, viveu em 3 séculos e faleceu com 105 anos. Encontros, almoços, projectos, entrevistas encheram a sua agenda até ao último momento.
Os idosos estão a tornar-se populações crescentemente poderosas – como força social (pelo seu número), cultural (pelos seus conhecimentos), económica (pelos seus consumos), política (pelos seus votos) interventiva (pela sua disponibilidade) e ética (pelo seu descomprometimento).
Sem nada a perder, - nem carreiras, nem cargos, nem hierarquias, nem privilégios, nem paixões – a maior parte deles encontra-se numa fase em que se pode dizer tudo, assumir tudo o que sente.
Nas sociedades do futuro, eles voltarão a ser um valor de sabedoria, de apaziguamento. Viver-se-á mais devagar nelas para se existir mais profundamente, viver-se-á mais despojado para se ser mais equitativo. O avanço que os idosos estão a conseguir é um legado, para quem o souber ver, de acrescentamento, de esperança.
Veja-se o exemplo de Mário Soares, como ele bem diz, não tem culpa de ter 80 anos. É um homem lúcido, está na posse de todas as suas faculdades. Como diz Medeiros Ferreira – Não conheço mais ninguém em Portugal que tenha intervindo tanto, escrito tanto, e organizado tanto como Mário Soares nestes últimos anos.
E tudo isto, tendo por base num artigo de Fernando Dacosta, para dizer que eu sou também a partir de hoje mais um aposentado. Será que, por ser idoso, já não se tem valor neste país?