terça-feira, abril 25, 2006

25 DE ABRIL


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.



ANDERSEN, Sophia de Mello Breyner
in “ Obra Poética II”

segunda-feira, abril 24, 2006

Mulheres e crianças são as primeiras vítimas do tráfico de seres humanos

As mulheres e as crianças são as primeiras vítimas do tráfico de seres humanos no mundo, segundo um relatório hoje publicado pelo Gabinete das Nações Unidas contra a droga e o crime, ONUDC.

"Na prática, nenhum país está livre do crime de tráfico de seres humanos para fins de exploração sexual ou de trabalho forçado", nota a ONUDC neste seu primeiro estudo destinado a dimensionar a amplitude do fenómeno.

Cento e vinte e sete estados foram identificados como países de origem de pessoas vítimas de tráfico, nomeadamente na Ásia e na Europa de leste, e 137 como países de destino, nomeadamente na União europeia, América do Norte e Golfo, Israel, Turquia, China e Japão. As mulheres surgem em 77 por cento dos "dossiers" de tráfico, as crianças em 33 por cento e os homens em 9 por cento, segundo a ONUDC. A exploração sexual é mencionada em 87 por cento dos casos, contra 28 por cento para as outras formas de trabalho forçado.

O tráfico de seres humanos atinge nomeadamente crianças e mulheres, que são vendidas como se fossem uma propriedade, bem como refugiados e migrantes, que ficam à mercê de organizações criminosas.

A escravatura moderna, diria eu


quarta-feira, abril 19, 2006

Os RETALHOS na revista Boina Verde

O “ Boina Verde”, boletim do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas nº 21, em formato e papel de jornal, nasceu em Angola em Agosto de 1965, precisamente no BCP 21, de que me orgulho ter pertencido, tendo eu na altura, colaborado, internamente, num jornal de parede chamado “Queda Livre” de 1971 a 1973.

Tal foi o seu sucesso entre todos os “boinas verdes” portugueses, na altura espalhados por três teatros de operações distantes, que de todas as unidades chegavam à redacção do boletim artigos para publicação e manifestações de apreço.

Assim, mais tarde, mantendo-se no BCP 21 passou a “jornal dos pára-quedistas”., até que, já no pós-25 de Abril de 1974, interrompeu a publicação, vitima da instabilidade que atingiu a organização pára-quedista.

Voltaria à vida em 1981, trimestralmente, com o mesmo nome, mas agora em formato (A4) e a cores.

Propunha-se o comandante do CTP, Brigadeiro Pára-quedista Heitor Almendra, (que em Angola, como Tenente-coronel comandava o BCP 21 no qual eu me integrava), lançar “definitivamente o “Boina Verde” com a indispensável regularidade, 4 vezes por ano, a partir de 1982… que seria um elo de ligação permanente entre todos os Páras.

O Coronel PQ, Barroca Monteiro, tomou conhecimento, via mundo da blogosfera, que eu estava a escrever as minhas memórias enquanto pára-quedista. Propôs ao chefe de redacção do “Boina Verde”, Major PQ, Álvaro Cunha, a minha colaboração, através dos meus registos enquanto soldado pára-quedista. É assim que surge, em jeito de crónica, na revista Boina Verde, acabada de publicar, os Retalhos das minhas memórias.


clique aqui para ler o texto

terça-feira, abril 18, 2006

Um novo colaborador

Pretende-se que este espaço tenha uma linha editorial onde impere o sentido crítico, a irreverência e a ousadia necessária tanto nos textos, como nas imagens ou nos poemas. Não se desviará um milímetro de uma linha de conduta apartidária e pluralista.
Neste contexto, para além dos Retalhos (em forma de memórias envelhecidas) e da Poesia, a partir deste momento, passará a contar com a colaboração do Paulo Vasco (Professor Mat/CN e Educação Especial), um pensador que gosta de lutar pelos direitos dos desfavorecidos e minorias. Odeia o provincianismo intelectual, moralismo social, falsidade e cinismo.

Sê muito bem-vindo a este espaço e obrigado por teres aceite o meu convite. É uma honra pela tua qualidade e talento, ter-te nesta equipa .
Obrigado

domingo, abril 16, 2006

Ao menos, dêem-se ao respeito

Há mil e um discursos moralistas que se poderiam fazer sobre o facto de o Parlamento não ter conseguido quórum para votar, porque muitos deputados, apesar de a Assembleia até encerrar hoje, resolveram partir mais cedo para as suas mini férias da Páscoa. A situação é tão triste e os deputados faltosos expuseram-se tanto que tudo o que se diga condenando a atitude é, até, redundante.
O pior, seguramente o mais triste, é não sabermos que ponta de arrependimento tem cada um dos que deixou a cadeira vazia. Um pedido de desculpa é essencial, quando não temos todos o direito de pensar que cada um dos senhores e das senhoras se baldou na certeza de que o vizinho do lado estaria por si.
O país tem os deputados que elege. O Dr. Jaime Gama, presidente da Assembleia, deveria encarar seriamente a possibilidade de nos dizer, um por um, o nome dos faltosos. Não é um apelo à denúncia, é apenas um apelo à reposição de um mínimo de decência.
Não vale a pena levar a questão ao extremo e pensarmos que é esta a classe dirigente que temos. Seria injusto. Mas é preciso dizer a esta gente que o mínimo que pode fazer é dar-se ao respeito. Ao menos, dêem-se ao respeito.
in JN

segunda-feira, abril 10, 2006

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM


Apoie esta ideia!!!!

Está aberta a campanha para a criação do Dia Internacional do Homem. Porque é que só às mulheres foi dedicado um Dia Internacional? Nós, homens, merecemos mais reconhecimento do que elas!

Razões do postulante:

1 - Quem é obrigado a erguer os pés quando ela está a limpar a casa?
- O prestativo homem!

2 - Quem se veste como pinguim no dia do matrimónio?
- O humilde homem!

3 - Quem é que, apesar do cansaço e do stress, jamais poderá fingir um orgasmo?
- O sincero homem!

4 - Quem é obrigado a sustentar a amante esbanjadora?
- O abnegado homem!

5 - Quem se expõe a levar uma bronca só porque ficou a trabalhar até bem mais tarde, com aquela nova secretária boazona?
- O fiel homem!

6 - Quem, na hora do sexo, fica a maior parte do tempo com o rosto voltado para o colchão ao invés de desfrutar da maravilhosa decoração do tecto? Quem tem que aguentar os gritos e os gemidos nos ouvidos?
- O sacrificado homem!

7 - Quem se expõe a uma úlcera, devida ao stress, por chegar em casa e não encontrar a limpeza terminada, a comida quentinha, as crianças com o banho tomado e a roupinha trocada, os bichinhos de estimação limpos e bem alimentados, a roupa lavada e passada, a cozinha limpa e o jornal já posto sobre a mesa?
- O doce homem!

8 - Quem se abala e se mortifica cada vez que repreende ou espanca a esposa?
- O terno homem!

9 - Quem corre o risco de ser roubado ou morrer apunhalado à saída dos bares, cada vez que participa nessas maçantes reuniões nocturnas com os amigos, enquanto a mulher está bem segura na sua cama?
- O desprotegido homem!

10 - Quem é submetido ao trabalho desgastante de 40 horas semanais para poder pagar as contas de água e energia eléctrica, despesas geradas pela mulher que não faz outra coisa senão passar, limpar, usar o aspirador e lavar durante pelo menos umas 10 horas diárias?
- O sofrido homem!

11 - Quem é o encarregado de matar as baratas e os ratos da casa porque ela sente pavor?
- O valente homem!

12 - Quem segura a "cauda do rojão", quando chega em casa com marca de baton na camisa, e é obrigado a dar explicações que nunca são aceites? Por acaso ninguém pode ter um amigo que trabalhe como palhaço? Ou ter abraçado uma tia na rua, daquelas que se enchem de maquilhagem?
- O incompreendido homem!

13 - Quem é que tem de barbear-se todos os dias?
- O pobre homem (e ás vezes sogras também)!

14 - Quem é que jamais pede que lhe repitam uma pergunta, toma banho e se veste em menos de vinte minutos?
- O ágil homem!

15 - Quem é que tem de segurar a vontade de chorar?
- O equilibrado homem (macho não chora...)!

16 - Quem é que tem de gastar consideráveis somas de dinheiro comprando presentes para o Dia das Mães, Da Esposa, Da Secretaria (não só para aquela nova boazona!), Da Amizade, Natal, Páscoa, Aniversário e outras festas inventadas para satisfazer a mulher?
- O generoso homem!

17 - Quem jamais conta uma mentira?
- O ético homem (sempre inocente, até prova em contrário)!

18 - Quem cede o nome para os recibos das despesas, para a lista telefónica e para a escritura da casa?
- O valoroso homem!

19 - Quem é obrigado a ver a mulher com os rolinhos nos cabelos e a cara cheia de cremes?
- O compreensivo homem!

20 - Quem lê isto ás escondidas para poder dar boas risadas, já que se for surpreendido corre o risco de ser agarrado pelo pescoço?
- O vigiado homem!
E quem arriscou as orelhas ao colocar este manifesto aqui?

sexta-feira, abril 07, 2006

Tambem começo a estar...

FARTO DE…

Farto de ser o culpado sem ter culpa de nada
Ser rejeitado farto de conversa fiada
Farto deste sistema de merda que nos engole
Farto destes políticos a coçar colhões ao sol
Farto de promessas da treta
Sobem ao poder metem as promessas na gaveta
Farto de ver o país parado como uma lesma
Ver as moscas mudarem e a merda ser a mesma
Farto de os ver saltar quando os barcos naufragam
Quanto mais tiverem melhor , menos impostos pagam
Farto de rir quando me apetece chorar
Farto de comer calado e calado ficar
Farto das notícias na televisão
Farto de guerras , conflitos ,fome e destruição
Farto de injustiças , tanta desigualdade
Cegos são os que fingem que não vêem a verdade
E eu tou farto...

Racismo, Guerra, Injustiça , Fome, Desemprego , Pobreza
E eu tou farto
Mentiras, Traição, Inveja, Cinismo, Maldade, Tristeza
E eu tou farto
Racismo, Guerra, Injustiça , Fome, Desemprego , Pobreza
E eu tou farto
Mentiras, Traição, Inveja, Cinismo, Maldade, Tristeza
Já chega...

Farto de miséria , o povo na pobreza
Uns deitam a comida fora , outros não a tem á mesa
Farto de rótulos , estigmas e preconceitos
Abrir os olhos e ver não temos os mesmos direitos
Farto de mentiras , farto de tentar acreditar
Farto de esperar sem ver nada a melhorar
Farto de ser a carta fora do baralho
Farto destes cabrões neste sistema do caralho
Ver roubar o que é nosso , impávido e sereno
Ser acusado de coisas que eu próprio condeno
Farto de ser político quando só quero ser mc
Não te iludas ninguém quer saber de ti
Todos falam da crise mas nem todos a sentem
Muitos com razão, mas muitos deles apenas mentem
Crimes camuflados durante anos a fio
Tavam lá todos eles mas ninguém viu
Nao foi ninguém, ninguém fez nada,
E se por acaso perguntarem ninguém diz nada
Farto de ver intócaveis sairem impunes
Dizem que a justiça é para todos mas muitos sao imunes
Dois pesos, duas medidas
Fazem o que fazem seguem com as suas vidas
Para o povo nao há facilidades
E os verdadeiros criminosos do lado errado das grades

BOSS AC

Ritmo Amor Palavras


Com devida vénia da: Estrelinha Ajuizada

terça-feira, abril 04, 2006

RETALHOS - Tudo o resto ficava para trás IV (fim)

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Dez dias para ir a casa fazer a despedida dos familiares, dos amigos, das coisas que os acompanharam em toda a sua juventude e agora, abruptamente, eram interrompidas. Poder fazer umas asneiras por conta, arranjar umas madrinhas de guerra para se corresponderem. Ter acesso ao último prazer carnal, tal era a fome de se agarrar à vida, tentando não engravidar as namoradas. Ao quartel voltar-se-ia depois para daí iniciar a verdadeira viagem.
Ali mesmo detrás de mim sussurrava o Patacão:
“- Compadre! Chegando à minha terrinha, com a fome que levo desta vida de cabrão, vou arrebentar as beiças à minha Ceição.”
“- Não sejas chaparro.” – Proferiu o Risotas.
“- Quem sabe se ela não virá a ser a tua esposa ainda.”
“- E depois? Quem me garante que regresso da Guiné?” – Defende-se o bom gigante.
Penso eu com os meus botões:
“- Este gajo é mesmo parvo, mas não deixa de ter a sua razão.”
Distribuídos os passaportes, reparo que não chegam para todos. Como o meu pelotão era o 7º e último, eu não recebi o tal papelucho.
“ – Foda-se, queres ver que acabaram os passaportes.”- Diz o Cunha com cara de poucos amigos.
Depois de uns minutos os sargentos, que distribuíram os passaportes, voltaram a colocar-se na cabeça dos respectivos pelotões. Ouve-se novamente uma voz:
“- Todos os soldados pára-quedistas que acabaram de receber os seus passaportes aproveitem esses dias para descansarem bastante, e despedirem-se das famílias e amigos. Para todos esses e só esses: DESTRO….. ÇAR.”
“ – Os restantes”. - Continuou o Coronel Durão.
“ – Deixo-vos com o nosso capitão Gomes, que vos dará uma explicação em detalhe.”
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domingo, abril 02, 2006

sexta-feira, março 31, 2006

Episodios nunca revelados da história de Portugal

Aqui vão alguns dos momentos mais marcantes dos últimos 800 anos da Terra Lusitana . Verdadeiros Marcos Históricos cuja autenticidade nem o Prof. José Hermano Saraiva se atreveria a dramatizar e adaptar à Televisão. Afinal a história é espectáculo...
1245 - Nasce Lili Caneças
1498 - Vasco da Gama chega à Índia e exclama "Ah f***-se...prá próxima venho de avião!"
1500 - Pedro Alvares Cabral perde-se no caminho para a Índia e é descoberto o Brasil. É nesta viagem que chegam a Portugal, escondidos na tripulação nativos como o Iran Costa, o Jardel ou o João Kleber
1822 - D. Pedro, que tinhaido com o pai, para o Brasil, vê uma miudas de fio dental a sambar e decide ficar por la
1910 - É assassinado o último rei de Portugal, D. Carlos, quando este comunica ao país que o possível rei da passagem do milénio será D. Duarte
1932 - Fernando Pessoa numa esplanada do Chiado reclama da qualidade do café que lhe tinham servido e exclama: "Enquanto não trouxerem um café em condições, não saio daqui!" ... ao que me parece Fernando ainda lá se encontra.
1974 - O Exército, insatisfeito com o preço das bebidas nos bares das casernas, invade o terreiro do paço e proclama a democracia
1980 - José Castelo Branco, casado e pai de um filho, tem a sua primeira relação homossexual e adapta instantaneamente uma frase de Shakespeare que marcou o milenio: "Tou bi ou não tou bi?"
2005 - Mário Soares, descalça as pantufas, pousa a botija de água quente e o cobertor, e na loucura dos seus 80 anos candidata-se à presidência da República

quarta-feira, março 29, 2006

RETALHOS - Tudo o resto ficava para trás III

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Em 1961, quando rebentou a guerra de libertação de Angola, ficou célebre a frase proferida, do alto do seu cadeirão que o haveria de levar á morte, ordenando de forma peremptória, com o dedo espetado e de cabeça perdida “Para Angola e em força”. Era assim o tratamento dado aos melhores filhos que partiam para a guerra, como se fossem soldadinhos de chumbo e alinhadinhos como convinha ao velho regime. Regressavam mortos ou vivos, estropiados ou traumatizados, mutilados ou tolhidos. O resto ficou nas picadas. A Pátria não os reconhecia como filhos que deram o melhor da sua juventude, que foram arrancados dos seus empregos e das universidades comprometendo-lhes o futuro.
Nos Pára-quedistas a mobilização para a guerra começa muito antes do embarque, precisamente logo após o fim da instrução da especialidade militar, o curso de combate.
A partir dos últimos dias de Dezembro de 1970, já me considerava um mobilizado e vivi essa angústia. Estávamos na época natalícia e o pai natal reservava-nos uma prenda especial. Nos primeiros dias de Janeiro, de 1971, fomos informados solenemente, e em parada, que toda a companhia estava mobilizada para a Guiné. Essa notícia criou algum desconforto entre todos, não por irmos para a guerra, pois sabíamos isso desde o primeiro dia, mas por irmos bater com os costados na Guiné. A má nova foi-nos dada pelo Coronel Rafael Durão, comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, ladeado pelo capitão Valente dos Santos, que nos tinha ministrado o curso de pára-quedismo. Este último era um militar extraordinariamente exigente, mas com um pouco de loucura à mistura. Era de estatura pequena mas entroncado. Falava-se que tinha menos um pulmão, perdido algures em África, mas não se notava nada, muito pelo contrário, pois a sua vontade, energia e raça era a de um autêntico combatente pára-quedista fazendo dele um herói vivo e respeitado por todos. Do outro lado, ladeava o comandante, o Capitão Gomes, que nos tinha acabado de aplicar o Curso de Combate.
Com a companhia perfilada, começaram a ser distribuídos os “passaportes” de dez dias – era esse o termo que designava as autorizações de saída de fim-de-semana ou férias –.

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sábado, março 25, 2006

Onde todos são alguém, ninguém é alguém.


Transportando o meu pensamento para a actualidade portuguesa, e a propósito do fim do mandato do actual Presidente da República, poderemos deduzir o corolário que se segue:

Onde todos são alguém, ninguém é alguém.
Onde todos são condecorados, ninguém é condecorado




do Zé Ribeiro, um amigo

quinta-feira, março 23, 2006

RETALHOS - Tudo o resto ficava para trás II

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Todos sabíamos que aquilo era dito só da boca para fora, pois o Cunha era um camarada íntegro e solidário. Era o seu sangue a ferver naquele corpo pequeno mas raçudo, com tez aciganada e com uma força física incrível que lhe valeu o 2º lugar nas provas físicas logo atrás do Covilhã que era só por si uma força da natureza.
No rosto de todos vislumbrava-se a alegria. O brevete de Pára-quedista e o crachá de Caçador, preso no lado direito do peito inchado pelo orgulho de termos conseguido superar todas as adversidades, fora uma dura conquista. Havia uma vaidade incontida por se sentirem, finalmente, pára-quedistas de corpo inteiro.
Por fim uns dias de férias. Sentimo-las como se fossem para uma despedida dos amigos, das namoradas, dos pais, e de toda uma vida que ficava para trás. Só não se deixavam os filhos para trás porque não aceitavam nas Tropas Pára-quedistas mancebos casados. Era como tirar um passaporte para a guerra, talvez para a morte, com pena suspensa, mas nunca para a vida. A vida, essa ficava nas vilas e aldeias onde cada um deixava um pouco de si.
Éramos combatentes preparados física e psicologicamente para enfrentar a guerra, de olhos nos olhos, sabendo que pouco nos restaria no infinito e de nada valia temer o inferno. Isso diferenciava-nos dos demais militares. Os casados não eram aceites, exceptuando os militares de carreira, já bastava deixarmos os pais num sofrimento ao partir para a guerra.
A Nação mandava os seus melhores filhos para África, como antes os tinha mandado para a Índia, com resultados nefastos quer para o país, quer para quem por lá ficou ou amargurou pelo oriente. Salazar, o ditador, comunicou à nação que só esperava, como resultado do combate, na Índia, "militares vitoriosos ou mortos".
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segunda-feira, março 20, 2006

Uma nova colaboradora

Pretende-se que este espaço seja um ponto de encontro, sem grandes pretensões literárias mas dando voz a quem tem algo a acrescentar. Nesta perspectiva, os Retalhos inicia agora com a colaboração da jovem Barbara Duarte, um espaço de poesia.

Ser poetiza é ser contraditória, é ter sentimentos mais delicados do que o comum das pessoas. É explodir num momento de angústia.

Sê bem-vinda Barbara

domingo, março 19, 2006

RETALHOS - Tudo o resto ficava para trás I

Foram quase nove meses de instrução militar exigindo-nos total disponibilidade física e psíquica, onde o sacrifício por vezes se tornava sobre-humano. Que podia fazer? Só tinha duas saídas possíveis: desistir ou esforçar-me para tentar ultrapassar as minhas dificuldades.
Desistir, significava virar as costas às dificuldades pessoais e humanas que se me deparavam e impediam de progredir e isso, não queria, não só por vergonha de aparecer na minha terrinha como um derrotado, mas também por solidariedade para com os meus companheiros, com quem aprendi o verdadeiro significado da palavra solidariedade.
Esforçar-me requeria passar por cima de mim mesmo, das minhas dificuldades internas, custasse o que custasse. A partir do momento em que eu senti ser importante superar o desafio, exigi de mim próprio o cumprimento da "missão". Impunha-se activar todas as minhas forças, mesmo aquelas vindas de não sei onde. Foi assim que descobri possuir capacidades até então nunca reveladas.
Senti, muitas vezes, necessidade de ajuda. Faltavam-me recursos e sozinho não conseguia trilhar o meu próprio caminho. Mas também nesses momentos me consciencializei da necessidade de ultrapassar todos os obstáculos. Estava determinado a conquistar a recompensa de me poder sentir um real vencedor.
Ao longo destes nove meses de parto, em muitos momentos, senti que precisava de me "ouvir" e escutar-me. Não é uma tarefa fácil quando estamos em plena guerra interna, desesperados com as questões e exigências quase sobre-humanas.
Enfim… como dizia o Cunha, quando se viu ao peito com o crachá de caçador pára-quedista:
“- Puta que pariu pá… somos uma máquina.”
“- Não há caralho que nos foda.”
“- Tirando o Sargento Vermelhinho, não é Braga?”. Dizia o Risotas, com ar de gozo naquele seu jeito característico, referindo-se ao Cunha.
“- Não me falem nesse cabrão. Ainda bem que foi bater com os cornos para a Guiné.”
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sábado, março 18, 2006

Fátima Felgueiras será mesmo submetida a julgamento

No dia 13 de Março o Correio da Manhã relatou que esta sra. não tinha fundos em seu nome - excepto a sua pensão de 3.500 euros e o $ da pres. de Câmara. Esta sra. é muito esperta, pois já arranjou a sua reforma da cga ( nem sei como) e nada tem em seu nome e está " divorciada" do seu ex-marido, com quem vive e em nome dele estão todos os seus antigos bens! Palavras Para quê? É uma política portuguesa, esperta e que até goza com toda a situação. Goza com os tribunais, foge para o Brasil ,volta e é reeleita para a Câmara Felgueiras, o povo de lá apoia-a, é um show.

É PORTUGAL NO SEU MELHOR.Por isso este país está de tanga...

quinta-feira, março 16, 2006

Lição de literatura

RETALHOS - Que o diabo leve a guerra IV (fim)

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Virei-me para o Risotas, enquanto despia o camuflado e virava as costas para a fogueira, e disse:
“ – Martins, vê o que tenho aqui nas costas! Deve ser algum corte já a cicatrizar. Sinto comichão, mas também me dói um pouco”.
“- Fuíza, chama aí o enfermeiro, para vir tirar este bichinho” - Pediu o Risotas.
“- Risotas, não brinques com coisas sérias, vê lá o que tenho na merda das costas que me está a picar.” – Dizia eu já com pouca vontade de brincar.
Chegou o enfermeiro que depois de observar o ferimento, virou-se para o Fiúza dizendo:
“- Ó nosso pára, vá buscar a minha mala que está ali junto á minha mochila”.
“- Mau, mau” - Pensei logo com os meus botões. “O que é que estes tipos estão a arranjar?”.
Ao fim de alguns segundos, o enfermeiro mostrou-me, na ponta da pinça, algo ensanguentado.
“- Sabe o que é isto? É uma carraça, que já estava mais dentro do que fora, das suas costas. Vamos agora desinfectar isso e fazer um penso”.
“- Foda-se… por isso me doía!” – exclamei eu com cara de totó. Sempre que lá ia com as unhas, parecia-me uma casquinha de uma ferida e, afinal, era essa puta parasita”.

quarta-feira, março 15, 2006

Como "atacar" os chatos do telemarketing....

- Está?
- Está, estou a falar com o senhor Nuno?
- Sim...
- Sr. Nuno, aqui é da TMN, estamos a ligar para apresentar a promoção TMN 1.382 minutos, que oferece...
- Desculpe, interrompo, mas com quem estou a falar?
- O sr está a falar com Natália Bagulho da TMN. Eu estou a ligar para...
- Natália, desculpe-me, mas para minha segurança gostaria de conferir alguns dados antes de continuar com a nossa conversa, pode ser?
-...Sssssim, pode...
- A Natália trabalha em que área da TMN?
- Telemarketing Pró-Activo.
- E tem número de funcionária da TMN?
- Desculpe, mas não creio que essa informação seja necessária.
- Então terei que desligar, pois não estou seguro de estar realmente a falar com uma funcionária da TMN.
- Mas eu posso garantir...
- Além disso, sempre que tento falar com a TMN sou obrigado a fornecer os meus dados a uma data de interlocutores.
- Tudo bem, a minha matrícula é TMN-6696969-TPA.
- Só um momento enquanto verifico.
-...??? (Dois minutos mais tarde)
- Só mais um momento, por favor.
-...??? (Cinco minutos mais)
- Estou sim?
- Só mais um momento, por favor, estamos muito lentos hoje cá por casa.
- Mas, senhor... (Um minuto depois)
- Pronto, Natália, obrigado por ter aguardado. Qual é mesmo o assunto?
- Aqui é da TMN, estamos a ligar para oferecer a promoção TMN 1382 minutos, pela qual o Sr. fala 1.300 minutos e ganha 82 minutos de bónus, além de poder enviar 372 SMS totalmente grátis. O senhor estaria interessado, Sr. Nuno?
- Natália, vou ter que transferir a sua ligação para a minha mulher porque é ela quem decide sobre alteração de planos de telemóveis. Por favor, não desligue, pois a sua chamada é muito importante para mim...
(Pouso o telemóvel em frente ao leitor de CD?s, coloco a música "Quero cheirar teu bacalhau" a tocar em repeat mode e vou beber um cafézinho...)

sexta-feira, março 10, 2006

RETALHOS - Que o diabo leve a guerra III

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É sempre aterrador o rebentamento de uma mina, muito mais tratando-se de uma anti-pessoal, (armas destinadas a mutilar ou ferir, por vezes matar, as suas vítimas). Para os militares, a finalidade da mina é ferir, mais do que matar. Matando, apenas retira uma pessoa do campo de batalha, ao passo que, se ferir, vários militares estarão envolvidas na evacuação e tratamento das vítimas. Serve também para desmoralizar os soldados que vêem os seus camaradas a sofrer e a serem amputados. Muitos deles nunca mais serão os mesmos homens.
Após alguns momentos de silêncio, lá seguimos em frente, com cuidados redobrados. Apesar de percebermos que o rebentamento não fora ali perto, caminhávamos atentos ao que pudesse surgir.
Os dias foram passando. Fizeram-se alguns aprisionamentos de militares “inimigos”. Estes quando se sentiam acossados escondiam-se em grutas ou casas abandonadas. A tropa pára-quedista batia toda a zona e possíveis locais de esconderijo e rapidamente os desalojava e prendia.
Ao fim de seis dias, já exaustos e sem mantimentos, chegámos ao topo mais alto da montanha. Aqui, era o ponto de reunião de toda a tropa terminando o treino no terreno. Descomprimimos toda a carga stressante. O frio era intenso, mas ao calor das fogueiras que nos permitiram acender, relatámos as peripécias que surgiram ao longo desta jornada.
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quarta-feira, março 08, 2006

RETALHOS - Que o diabo leve a guerra II

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“ - O meu filho Zé morreu em Angola, foi dos primeiros a ir para o Ultramar” – passou o braço pelo cara como a limpar a malfadada lembrança.
“ – Quem devia ir para Angola eram “eles”. O Salazar já morreu, essa alma maldita, mas a guerra não acaba” – Enquanto falava, virava a cara para o chão, com medo que algum oficial a ouvisse.
Entreolhámo-nos meio envergonhados pelo “desplante” e a coragem que os anos e a sabedoria lhe abonavam.
“ - Que o diabo leve a guerra, meus filhos “ - Disse em jeito de despedida.
Fomos progredindo, sempre a corta mato, evitando os trilhos e caminhos, sempre de olhar atento a cada passo calcorreado e evitando os barulhos que podiam alertar a nossa presença, em terreno hostil. Ainda as palavras da anciã nos martelavam no ouvido, quando passou mesmo ali, pertinho, um coelho bravo, em autêntica correria alucinada, como sentindo que estavam a invadir o seu território, ou algum predador o ameaçava.
“- Um coelho!” – Exclamou em surdina o Covilhã, habituado a conviver com a serra e com as suas ovelhas, lá para o lado da Serra da Estrela.
Se não sentisse o olhar frio, recriminatório e penetrante do Cabo Veríssimo, por quem tínhamos todos imenso respeito pela forma como nos tratava e acompanhava desde o primeiro dia de instrução militar, o nosso pastor soldado tinha-se atirado ao pobre coelho que fugia espavorido.
De vez em quando, éramos invadidos pela perfumada carqueja e um cheiro oculto e penetrante a rosmaninho. Neste local, esquecido pelo tempo, existem, embrenhados na serra, numerosos vestígios da vida comunitária rural. Antigas pontes, velhas azenhas e levadas, açudes e fontes de mergulho fazem parte deste património riquíssimo que coabitava com os coelhos bravos, raposas, javalis e saca-rabos. Perdizes, tordos, gaios, milhafres e muitas outras aves completam o quadro de vida animal desta zona montanhosa de Vila de Rei, onde estávamos em treino militar.
Esta paisagem fresca, quase nos distraía da missão e dei comigo a pensar:
“- Vê-se logo que é tudo a fingir, na Guiné não há disto. A vida lá deve ser terrível, segundo o que dizem os que de lá vêm.
Depois de vários obstáculos naturais serem transpostos, quase sempre com a ajuda de cordas, lá fomos batendo toda aquela zona. De repente um rebentamento e… tudo desapareceu pelo chão dentro, num instante.
“- Foi o rebentamento de uma mina anti-pessoal.” - Disse alguém, como se não soubéssemos que as minas não eram para nós, mas para o treino ser o mais próximo da realidade.
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terça-feira, março 07, 2006

A/C da ASSISTÊNCIA TÉCNICA

Há um ano e meio troquei a minha versão Namorada 7.0 por Esposa 1.0 e reparei que esta última provocou uma execução automática de Bébé 1.0 que me ocupa muito espaço no disco duro.
No folheto esta aplicação não vinha mencionada. Mais ainda! Esposa1.0, instala-se automaticamente noutros programas e corre automaticamente quandoexecuto qualquer outra aplicação.
Aplicações como BeerWithFriends 10.3, ou NoiteBorga 2.5 ou SundaySoccer 8.5 já não funcionam.
Ainda por cima esta aplicação executa de forma invisível umprocesso/programa Sogra 1.0 que faz com que a aplicação Esposa 1.0 secomporte de forma irreconhecível.
Não consigo desinstalar Sogra 1.0, o que é bastante chato, porque quandotento correr DomingoBeijinhos 3.0 esta última torna-se mais lenta e muitasvezes nem arranca.
Pretendo voltar a reinstalar Namorada 7.0 mas não existeprograma de desinstalação, parece-me ser bastante complexo e aparecem muitasjanelas "Warning! Warning!".
Não sei qual será o impacto na aplicação Bebe 1.0, que não quero retirarporque até me dá algum gozo, principalmente porque parece ser um software muito basico e problemático!

Pode-me ajudar?
Ass. Um utilizador desmoralizado
_______________________________________________
RESPOSTA
Caro utilizador,
Esses problemas têm sido comuns, bastante comuns, mas são devidos, namaior parte, a erros básicos de concepção: muitos utilizadores passam dequalquer versão Namorada X.0 para Esposa 1.0, partindo do princípio de que este éapenas um programa de divertimento. Mas não! Esposa 1.0 é mesmo umsistema operativo.
Controla tudo!!! É quase impossível desinstalar Esposa 1.0 e voltar a instalar Namorada 7.0, porque existem ficheiros ocultos que fazem com que Namorada 7.0 se comporte como Esposa 1.0. Logo, não tirará qualquer partido.
O mesmo acontece com Sogra 1.0. Estes programas são antigos e trazem, muitas vezes, problemas de compatibilidade. Com um pouco de sorte, e com o tempo, um vírus poderá resolver e atacar Sogra 1.0, que é a única forma de resolver o problema.
Alguns utilizadores já formataram tudo e instalaram Namorada Plus ouEsposa2.0. e ainda criou mais problemas, porque não leram atentamente o capítuloCuidados, parágrafo Pensão Alimentar e Guarda dos Filhos.
Se tentar instalar Namorada 8.0, para depois passar para Esposa 2.0, os problemas ainda serão piores do que com Esposa 1.0. Existem versões 3.0, 4.0, 5.0 de Esposa, mas estas são reservadas a profissionais, têm um custo muito elevado e, claro, desaconselhados a qualquer utilizador normal.
Se estes problemas continuarem, instale Solteirex 1.0; mas nós sugerimosque mantenha Esposa 1.0 e trabalhe com muito cuidado. Pessoalmente, instalei Esposa 1.0 e aconselho vivamente a ler com muita atenção o capítulo Erros Gerais, do Manual do Utilizador. Esposa 1.0 é um programa muito sensível aos comandos e funciona bem em modo protegido contra erros. Logo, qualquer erro deverá ser assumido por si. Uma das melhores soluções é executar comando: C: \programas \esposa1.0\ pedirdesculpas.exe logo que surja um erro ou um problema.
Nunca use as teclas ESC ou DEL, porque senão terá que executar C:\programas\esposa1.0\pedirdesculpas.exe /flores/all para que tudo volte a funcionar correctamente. Esposa 1.0 é um programa interessante, mas pode gerar custos imprevistos se mal utilizado.
Aconselhamos a instalar um plug-in, tal como Flores 5.0 ou Jóias 3.2 ou Caraíbas 2.5. Versões freeware existem e funcionam bem, tais como SimMeuAmor 4.5 ou TensRazão 6.5. Poderá consultar o site destas aplicações e verá que estão documentados resultados impressionantes.
ATENÇÃO: Nunca instale SecretariaMiniSaia 3.3 ou Amiguinha 1.1 ou Amante Versão Beta porque estes programas poderão causar danos irreversíveis no sistema.
Boa Sorte.
Serviços Técnicos.

domingo, março 05, 2006

RETALHOS - Que o diabo leve a guerra I

As tropas estavam estacionadas no sopé da montanha. Os sete pelotões foram distribuídos, pela área de intervenção, nos povoados que formavam uma península delimitada pelas ribeiras Isna e Codes e pelo rio Zêzere. Apresentava-se imponente aquele mar de água, novidade para muitos de nós, mas que não era mais do que a Albufeira do Castelo de Bode.
Fomos alinhados na orla da ribeira de Isna onde o comandante de pelotão, em pouco mais de cinco minutos, nos deu em forma de prelecção, mas muito concisa e telegráfica, os objectivos da operação.
“- Caros soldados e futuros Caçadores Pára-quedistas” – Dizia com a voz firme o nosso sargento.
“- Imaginem-se algures no Ultramar, não direi Guiné, pois a Guiné não é isto, mas talvez no norte de Angola”.
Quando falou Guiné, olhámos de soslaio uns para os outros.
“ – Este pelotão é um pelotão de assalto a redutos inimigos, e vamos bater a zona que nos foi determinada, ao longo desta montanha. Iremos encontrar ao longo desta semana: povoações, tropa inimiga, picadas armadilhadas, emboscadas, mas também tropa amigam.”- Enquanto ia falando, com uma mão atrás das costas e com a G3 na outra, deslocava-se passando a menos de meio metro de cada um de nós, fitando-nos.
E continuando, foi lembrando alguns ensinamentos e comportamentos em situação de guerrilha, relembrando, várias vezes, a necessidade de progredir em silêncio e no material que carregávamos “pendurado” no corpo, para que não fosse a chocalhar.
“- O factor surpresa é fundamental, não podemos ser emboscados que nem uns “arre-machos”- e terminou avisando:
“- Poupem a água! daqui a três dias seremos reabastecidos, mas até lá, não sei se haverá mais água”.
De repente ouve-se o rebentamento de um morteiro indicando que tudo estava a postos e a operação “Limpeza” acabava de ter início.
Claro que era tudo a fingir, mas nas nossas mentes, estávamos na guerra e íamos de encontro ao risco.
Através de um percurso sinuoso, ao longo da ribeira, fomos encontrando velhas azenhas, mas inimigo, nem cheiro. Alguns aldeões aqui e ali, como habituados a este tipo de operações militares, sorriam como se sentissem reconfortados pela tropa amiga que os punha a salvo de algum ataque “terrorista”.
Surgiu uma aldeã, com a pele marcada pelo tempo, com a cara encovada pela fome e pelo trabalho duro e penoso que a serra lhe reservava.
“- Coitados dos nossos soldados, é p’ra isto que uma mãe cria um filho?” – Lamentava-se a velhota.
.../...

sexta-feira, março 03, 2006

quinta-feira, março 02, 2006

Maria (mãe)


Maria (mãe) é o pilar principal da minha vida, tem sido a minha força e alento nesta caminhada de mais de meio século, sem ela eu não seria nada. Uma guerreira desde ontem passando pelo hoje e querendo-me ver bem enquanto guerreira nesta luta que é a vida no amanhã.

A poucos dias de completar 84 anos, Maria (mãe), foi sempre um pouco de tudo isto. Mas será fundamentalmente MARIA MULHER

Relação das Marias compostas, segundo o Houaiss...

Maria-barulhenta

Maria-besta

Maria-boba

Maria-branca

Maria-cadeira

Maria-caraíba

Maria-cavaleira

Maria-chiquinha

Maria-com-a-avó

Maria-condé

Maria-da-costa

Maria-da-fonte

Maria-da-mata

Maria-da-serra

Maria-das-pernas-compridas

Maria-da-toca

Maria-de-barro

Maria-é-dia

Maria-faceira

Maria-farinha

Maria-faz-angu

Maria-fecha-a-porta

Maria-fedida

Maria-ferrugem

Maria-fia

Maria-fumaça

Maria-gomes

Maria-gorda

Maria-guenza

Maria-irré

Maria-isabel

Maria-já-é-dia

Maria-judia

Maria-lecre

Maria-leite

Maria-lenço

Maria-leque

Maria-luísa

Maria-macambira

Maria-macumbé

Maria-meu-bem

Maria-mijona

Maria-minha

Maria-mole

Maria-mulata

Maria-nagô-de-penacho

Maria-negra

Maria-peidorreira

Maria-pereira

Maria-peteca

Maria-pobre

Maria-preta

Maria-preta-da-mata

Maria-preta-do-campo

Maria-pretinha

Maria-rapé

Maria-rendeira

Maria-rita

Maria-rosa

Maria-seca

Maria-sem-vergonha

Maria-teimosa

Maria-vai-com-as-outras

Maria-velha

Maria-velhinha

Maria-vitória

Maria-viuvinha

... e eu acrescento Maria-heroina

RETALHOS - Irmãos de guerra III

Mais dois irmãos da guerra localizados. Podem acreditar, mas aqui o Simon Wiesenthal (minhoto), vai apanha-los a todos. E vão se a ver comigo, por terem andado tanto tempo, 33 anos, sem darem notícias.
Já somos 10, a saber:
José Marques, Cerqueira Ramos, Tino Martins, José Lima, Jorge Viana e Fiúza Casimiro, Manuel Cunha e António Alves
E agora: Levi de Sousa e Sérigo Ramos.

domingo, fevereiro 26, 2006

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ganda maluco

Modernidades linguísticas

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado!


As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio doméstico".

De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares da acção educativa".

Os vendedores de medicamentos, inchados de prosápia, tratam-se de "delegados da propaganda médica".

E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".

Os drogados transformaram-se em "toxicodependentes" (como se os consumos de cerveja e de cocaína se equivalessem!); o aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez"; os gangues étnicos são "grupos de jovens" ; os operários fizeram-se de repente "colaboradores"; e as fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais".

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
Desapareceram outrossim dos comboios as classes 1.ª e 2.ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.

Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável".

Ainda há cegos, infelizmente, como nota na sua crónica o Eurico. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...).

Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.

E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.

À margem da revolução semântica ficaram as putas. As desgraçadas são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do quarto para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre o modo de expressão ou lhes imponha a terminologia nova. Os amantes do idioma pátrio, se o quiserem ouvir pleno de vernaculidade, que se dirijam ao bordel mais próximo. Aí sim, um pénis de 25 centímetros é um " *aralho enorme" e nunca um "órgão sexual masculino sobredimensionado"; assim como dos impotentes, coitados, dizem elas castiçamente que "não levantam o pau", e não que sofrem de "disfunção eréctil".

do amigo: João Moreira (boina verde)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

COMUNICAÇÃO MARIDO / MULHER

O Marido e a Mulher não se falavam há uns três dias... Entretanto, o homem lembra-se que no dia seguinte terá uma reunião muito cedo no escritório, e como precisava de se levantar cedo resolveu pedir a mulher para acorda-lo, mas para não dar o braço a torcer, em vez de falar, escreve num papel:

"Acorde-me às 06 horas da manhã"
No outro dia, levanta-se e quando olha no relógio são 09:30 h. O homem tem um ataque e pensa:
Filha da p... !!! estúpida!!! não me acordou...
Nisto olha para a mesa de cabeceira e repara num papel no qual está escrito:
"... São seis horas, levanta-te!!!"

conclusão:
NÃO FIQUE SEM FALAR COM AS MULHERES, elas ganham sempre.

Chocante

Parabens ao (meu) Benfica, pela soberba vitória.

Mas ao saber isto, até nem me apetece falar de futebol.

Tinha ouvido a notícia na Bola Branca, e depois perdi a referência. Hoje voltei a procurá-la e consegui encontrar aqui os detalhes que precisava para fazer um post.Lualua, jogador pela selecção do Congo, foi informado da morte do filho de 18 meses apenas 15 dias depois do ocorrido! Tudo porque a selecção ainda se encontrava a disputar jogos na Taça de África das Nações. Valeu de muito à selecção, esta atitude indescritível!Absolutamente revoltante. Sem palavras!

Surripiado de: Apito Feminino

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Crise? Qual crise?

…e a Caixa Geral de Aposentações aposentou-o apesar do ex-deputado socialista e actual administrador da Galp, Fernando Gomes não ter solicitado a reforma,

Apesar de reformado, ainda continua a trabalhar e irá começar a receber em Março ( com efeitos retroactivos de 1 de Novembro de 2005) uma reforma de 3172 euros, um valor que irá acrescentar ao seu salário mensal na ordem de 15 mil euros.

Como gestor público, Fernando Gomes não é obrigado a optar por um terço do salário ou da reforma, como acontece agora com os titulares de cargos políticos. Devido ao novo regime de pensões dos titulares de cargos políticos, o ex-ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, e o actual ministro das Obras Públicas, Mário Lino, foram obrigados a ‘encolher’ os seus rendimentos mensais.

Crise? Qual crise?

sábado, fevereiro 18, 2006

Caricaturas IV

E teremos que juntar ainda mais esta...
Helmut Kohl, Chanceler da Alemanha de 1982 a 1998


sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A cara do poder

Caricaturas III

E teremos que juntar ainda mais esta...
Jacques Chirac, Presidente francês


Caricaturas II

Teremos que juntar mais esta...
Bill Gates que é só o mais rico do mundo pelo 10º ano consecutivo

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Caricaturas I

Teremos que juntar mais esta...
de Putin, Presidente Russo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

RETALHOS - O frio da realidade IV (fim)


Parecia que este exercício fora programado, propositadamente, para esta altura do ano, para que as condições mais adversas testassem as nossas capacidades e ultimassem a nossa preparação em situações limite.
No outro topo da Berliet, enxergo o Fiúza, com aquela cara moldada pelos anos do mar e habituado às agruras próprias do ambiente. Lembro-me sempre de ele falar, no seu jeito exaltado, dos homens do mar:
“- A bordo da traineira, contava um velho pescador que quando ouviu o diabo descrever as agruras do inferno lhe tinha respondido: “a gente habitua-se a tudo”.
Talvez seja verdade. Mas ninguém está perfeitamente adaptado, a qualquer coisa que seja, sem por lá ter passado. A vida do mar tem muitas semelhanças à que encontrei nas forças pára-quedistas.
Para uns será mais fácil do que para outros, mas todos sentimos inicialmente os problemas de viver em espaço apertado, termos de acondicionar num cacifo todos os nossos pertences e a necessidade de partilhar quase tudo o que era privado. Não há nada que se faça que não acabe por interferir com a vida do camarada do lado, exigindo-se de todos um sentido de grupo, de colaboração, de tolerância e solidariedade que dificilmente terá paralelo na vida civil.
Passaram duas semanas após a segunda baixa mortal neste meio ano de preparação. Cada vez tudo se tornava mais exigente, mais duro para testar os limites físicos e mentais, quase sobre-humanos, de cada homem de forma a torná-lo um caçador por excelência.
Desciamos as escarpas íngremes da serra, em Vila de Rei, carregando cada um de nós, todo o equipamento individual, com o auxílio duma corda de sisal. Exercícios necessários, mas extraordinariamente exigentes, onde todos acabavam arrasados e sedentos. Ali tão perto estavam as águas perigosas do rio Zêzere a ameaçar-nos se déssemos alguma queda, mas agora serviam para nos refrescar.
Nunca se soube se o soldado, se atirou ao rio para se refrescar ou caiu já inanimado pelo esforço a que foi submetido. Alguns minutos depois deu-se a falta dele e aí o Fiúza, nosso “homem do mar”, ainda a recuperar do esforço, não hesitou e mergulhou às profundezas tentando resgatar uma e outra vez, num esforço, que se veio a revelar infrutífero, pois a corrente arrastou o corpo rapidamente nas águas de Inverno pelo rio abaixo.
Os semblantes destes três camaradas eram comuns a todos quantos iam aconchegados na viatura. Era o frio da realidade tomando conta de todos, mas tinha a consciência que a preparação e treino de um Caçador Pára-quedista só poderá fazer-se utilizando como meio o próprio risco.
Depois de quase uma hora de viagem empoleirado, lá chegámos ao objectivo de uma povoação chamada Vila de Rei.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

As minhas manias

[Regulamento:Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.]

O Fernando, da Hora que há-de vir, quer saber cinco das minhas manias, melhor dizendo, que as divulgue pois como mano e compadre, conhece-as muito bem… mas enfim! Nem sei por onde começar… mas como as manias são versáteis, pois alguns hábitos tem sempre que a ver com o presente. Então vamos lá.
1- Apesar de aposentado ao fim de quarenta e dois anos a trabalhar oficialmente, levantam-me da cama impreterivelmente às 8 horas, ou pelo despertador ou pelo meu filhote de 6 anos. Depois do ataviar convenientemente, venho ao pc ver o correio e tomar conhecimento de algumas novidades, ás nove horas, levo-o á escola, aproveito para na vinda comprar o JN e ir tomar um cafezinho, ler esse e mais alguns jornais à borla no café, termino quebrando a cabeça no sudoku pois já foi também “apanhado”.
2- O resto da manhã, aproveito para jardinar em casa, neste momento é mais pedreirar, pois estou armado em pedreiro e a dar cabo das minhas mãozinhas tão mal habituadas, mas como é mesmo a minha principal mania a construção seja do que for, até Legos, neste caso pedreiro, mas se profissionalmente era na construção naval (planeamento), também gosto e faço - só para mim - na área da electricidade, serralharia, e principalmente informática,
3- Agora deu-me para escrever as minhas memórias. Para já as de natureza militar e da guerra, depois logo se vê. Se eu tiver talento e pachorra, pode ser que saia alguma coisa que não envergonhe quem me quer como amigo.
4- Tiro sempre umas horinhas para navegar, para blogar e para conversar com os amigos e amigas. Está a tornar-se também viciante, mas enquanto der para aguentar... vamos andando
5- Incomodar os amigos com as minhas coisinhas, como esta de ter que escolher cinco para dar corpo a esta corrente e de entre muitos seleccionei, que me perdoem os outros, ou mesmo estes pelo abuso. Aqui vai:
Á Bárbara,
O frio da realidade, uma jovem poetiza que é urgente apoiar e divulgar. Ao Vasco, Dentro de uma das minhas gavetas, um jovem professor com uma sensibilidade fora de comum e um amigo para todas as ocasiões. Á Céu, Cantinho da Tricaninha, uma Coimbrâ, mulher de armas e uma mulher fantástica. Á Lina, Ruby & Pearl, Professora, Grande Amiga e lutadora contra o Cancro, na 1ª pessoa. E á Riquita, Contra capa, uma médica que aprecio muito com os seus escritos.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

RETALHOS - O frio da realidade III

Recordei as aulas teóricas dadas ao ar livre, onde o bom gigante era o prato da festa:
“- Patacão, isto chama-se o precursor e tem como função…” – e agora virado para todo o grupo, o Instrutor lá foi explicando vagarosamente, em que consistia o corpo de uma granada ofensiva.
De repente vira-se de novo e pergunta:
“- Patacão, como se chama isto?” - Mostrando o precursor.
“- Na sei, meu sargento” – Responde o Patacão.
Perante a risada geral, o sargento quase engolia o precursor de raiva. Eram umas aulas divertidas.
O Cunha, quase com metade da altura do Patacão, mas com uma energia incrível, estava sentado a meu lado e perguntou-me:
“- De que te ris pá? Nem com este frio deixas de magicar?”
“- Estava a pensar no Patacão e no sargento Vermelhinho.”
“- Não me fales nesse cabrão de Sargento, ainda sinto os ouvidos a fritar.”
“- Esse gajo, numa bela segunda-feira e depois de uma aula de minas e armadilhas, deu 15 minutos de intervalo.” – Como se eu não soubesse da história, o Cunha lá foi vomitando a sua revolta:
“- Passado o intervalo, esse cabrão deu pela minha falta. Estava estourado e adormeci sentado e encostado a uma árvore. O filho da puta veio procurar-me, sozinho, deu comigo e em vez de me acordar, atirou uma granada perto para me pregar um susto…”
Com a cara transfigurada pela revolta rematou:
“ – Se um dia o apanho na Guiné, limpo o sebo a esse cabrão”.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

É a Economia, estúpido!

Excelente artigo de Miguel Carvalho, com a devida vénia, que dou aqui à estampa
Eu já sabia que a Economia punha e dispunha.
Sinto-o no bolso, todos os meses. O ordenado é o meu barómetro: se estica, estou em retoma. Se não estica, entro em recessão.
Noutras considerações não entro, por manifesta incompetência.
Não jogo na bolsa, não tenho fundos de investimento, nem sequer comprei casa por pavor de ver o meu futuro entregue a um banco.
Mas há uns anos diverti-me imenso com o facto de um diligente empregado de hotel do Luxemburgo me bater à porta do quarto às sete da manhã para me entregar em mão o Financial Times, o que, como devem imaginar, é mesmo aquilo que um homem precisa às sete da manhã.
De Economia e Finanças, sei menos do que o básico. E sou um péssimo gestor dos meus vícios e gastos.
Sei pouca coisa, portanto...
Sei que, desde que há governos no Portugal democrático, os aumentos de ordenado têm sempre de ter em conta a crise e a inflação e, portanto, têm de ser moderados. A crise vem de longe, é como a fama do Constantino, o do brandy, se bem se lembram.
Sei também que as receitas do FMI para os países em crise nunca os tiraram da crise, pelo contrário. Li isso no El País de sábado, mas até para mim não era novidade.
Sei que a liberdade de Imprensa no Ocidente tem um preço – petróleo – e as guerras modernas um motivo – petróleo.
Sei que a ONU prega todos os anos no deserto que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres e isso pouco mais dá do que rodapés nos jornais.
Sei que a revista Fortune (é mesmo esta?) publica anualmente uma lista dos mais ricos do mundo e que Bill Gates está sempre no topo e o engenheiro Belmiro aparece na lista.
Há dias, estiveram os dois por cá, o que nem sempre acontece, como se sabe.
Bill Gates, o tipo que magicou este sistema em que escrevo – que agradeço penhoradamente – teve honras de chefe de Estado, e ao que parece, o doutor Marques Mendes não gostou de tanto servilismo de Estado. Se pudesse, o doutor Mendes teria dito ao engenheiro Sócrates, em plena visita de Gates, uma coisa deste género: «Quanto mais te baixas, mais se te vê o rabo». Pensou, mas não disse. O doutor Mendes sabe que um dia, se lá chegar, pode ter de ser ele a fazer o papel de Sócrates.
Com jornalistas em êxtase a fazer a entrevista das suas vidas ao Bill e o histerismo político e ministerial que se viu, o doutor Mendes corria o risco de falar e ser mal interpretado. Por isso, deixou o Bill ir embora e falou depois. Sim, o doutor Mendes também sabe que a Economia, ao contrário do sonho do Gedeão, é que verdadeiramente comanda a vida. E ele deve saber isso, pelo menos desde que o professor Marcelo – do partido do doutor Mendes – se meteu com o engenheiro Belmiro por causa de uns negócios mal explicados. O patrão da SONAE zangou-se e obrigou os deputados a levantar o cuzinho bem cedo do choco para o irem ouvir ao Parlamento.
Se dúvidas ainda existissem sobre o facto da Economia mandar nas nossas vidas, eis que o País se agita por causa da OPA hostil da família Azevedo ao universo da PT. Negócio do ano. Do século. Ouvi dizer. Por momentos, pensei no que a minha vida ia mudar por causa da OPA. Descobri, com esforço, que talvez não mude nada, embora esperando sempre o pior. A OPA, ao que parece, é um Euromilhões à portuguesa, coisa nunca vista. Não sei. No outro Euromilhões, o das cruzinhas, ainda jogamos à sorte o nosso destino. Neste, cheira-me que ficamos a ver jogar. Mas isto sou eu...

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Pouco respeito pela vida humana


Apesar do infortúnio, lemos com satisfação, que a família de uma criança que nasceu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, e cujo parto foi objecto de "uma alegada negligência médica de um obstetra e um pediatra do Hospital de Setúbal", conforme nos diz a Sic, vai passar a ser indemnizada pelo referido Hospital, por um valor que compense a família, pelos gastos que tem com a saúde da criança. Apenas 550 euros, por mês! De facto, a justiça portuguesa ainda tem pouco respeito pela vida humana. Mas, pode ser um princípio!

ESQUECERAM DE QUE EXISTE...ENVELHESCÊNCIA.

Se você está entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E se já passou, confira.
Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro parte: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correcto, Esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice existe a envelhescência.
A envelhescência nada mais é do que uma preparação para entrar na velhice assim como a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não antes da envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso.
Nós envelhescentes, também mudamos o nosso ritmo de falas, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápido, os envelhescentes querem falar lentamente.
Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro, os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos.
Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós envelhescentes também não os entendemos. Ninguém me entende é uma frase típica dos envelhescentes.
Ambos adoram deitar e levantar tarde.
O adolescente adora assistir um show de um artista envelhescente (Caetano, Chico, Mick Jagger). O envelhescente adora assistir um show de um artista adolescente (Daniela Mercury).
O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. O envelhescente pararia qualquer preço para deixar o vício. Ambos bebem escondido.
Adolescência vai dos 10 aos 20 anos, a envelhescência do 45 aos 65. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente.
Daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer: é um eterno envelhescente! Que bom.

SEJA BEM-VINDO À TERCEIRA IDADE!

Mário Prata

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

RETALHOS - Os Pumas terminam agora a sua missão


O primeiro protótipo do Puma, de origem francesa, voou pela primeira vez a 15 de Abril de 1965. Portugal recebeu-os em plena guerra do Ultramar e foi o primeiro país do mundo a utilizá-los em situações reais de combate. Os 13 Puma comprados pela Força Aérea chegaram entre 1969 e 1971.
Conheci-os muito bem em Angola. Eram excelentes pela sua maior capacidade de transporte de militares em teatro de guerra, onde eram utilizados especialmente em operações de alto risco largando-nos a cerca de 15, 20km do objectivo, para não sermos detectados, e depois nas evacuações dos pára-quedistas, quando a operação ao fim de 3, 4 dias era dada por terminada.
Quando ouvia o som característico do helicanhão a chegar, que mais não era do que o Alouette III equipado com um canhão de 20 mm na porta traseira esquerda, era sinal que a nossa evacuação estava eminente.
Hoje, as aeronaves que chegaram com a Guerra do Ultramar voltam a estar no centro das atenções, mas por razões distintas. Esta manhã, na Base Aérea 6, no Montijo, assinala o princípio do fim de 30 anos de missões dos Puma. O novo ‘Senhor dos Céus’ chama-se EH 101 Merlin. Até ao final deste ano, a Força Aérea espera ter 12 destas aeronaves a operar. Seis, vocacionadas para busca e salvamento, começam a voar hoje. Duas, para fiscalização das pescas, devem descolar até Dezembro. As quatro restantes ainda estão na fábrica.
O dez Pumas que ainda restam – pois a primeira baixa ocorre na BA3 em Tancos numa sabotagem pela LUAR, estava eu nessa altura na Polícia Aérea (desenfiado em casa, mas isso é outra história), a segunda baixa sucede deu-se em Moçambique tendo a terceira baixa ocorrido nos anos 80. – Espero que lhes dêem uma vida útil na Protecção Civil, combate aos fogos florestais e no interesse público.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Absolutamente fantástico

RETALHOS - O frio da realidade II

Havia sete Berliet’s para outros tantos pelotões. O comandante do curso era transportado num Unimog, viatura que se revelava um veículo militar muito instável e de alta perigosidade, pela facilidade com que se despistava e capotava. Originava, nas guerras de África, um número elevadíssimo de acidentes, provocando mortos e feridos graves.
A coluna militar vista de trás, dava-me uma visão fantasmagórica que eu me habituei a ver no transporte de tropas, em filmes de guerra. Rapidamente a minha mente voava para tudo o que me tinha trazido até este momento. Eu só queria ser pára-quedista e saltar de avião. Nunca me passou pela cabeça as aventuras em que me vim meter. Por força das circunstâncias e pelos laços de amizade que se foram alicerçando, com todos os camaradas e com alguns instrutores, que apesar de tudo nos tratavam como pessoas e nos ajudavam a formar homens, para além de guerrilheiros, dei comigo a gostar desta família.
Passei a ponte de Constança sobre o rio Zêzere. Este depois de serpentear ao longo de mais de 200 km conflui uns metros abaixo com o rio Tejo. Já na outra margem e com o dia a alvorecer, a minha cabeça meio abandonada, entre as orelhas, começou a fervilhar e os meus olhos a deixarem de ver para o lado de fora das coisas.
Fui reparando nos semblantes dos meus companheiros de armas e tentando adivinhar o que lhes ia na alma. Sentíamo-nos como uns cadastrados ligados à grilheta um dos outros. Ninguém falava e não era só o frio daquele Dezembro gélido de 1970, mas também o frio da realidade que nos tolhia.
De entre todos os que se procuravam livrar do frio cortante, que entrava por nós dentro, sobressaía o bom gigante do Patacão. Um alentejano no seu estado puro, lento e calmo em tudo o que fazia, até no pensar era lento. Nem as pernas enormes assentes num 46, de botas, o faziam andar mais depressa. Tinha a tez queimada pelo sol das planícies alentejanas. De perto, só se lhe vislumbrava um nico de cara e a luz dos olhos.
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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Um espaço renovado

Este espaço tem uma cara mais lavada, mais fresca e presumo mais arejada.
Aproveitem para dizer da vossa justiça, comentando.

Obrigado

terça-feira, janeiro 31, 2006

Um país em mudança

O casamento entre duas mulheres, marcado para quarta-feira, 1 de Fevereiro, na 7ª Conservatória do Registo Civil, em Lisboa, é muito mais do que um caso mediático...

Teresa e Lena, de 28 e 35 anos, respectivamente, são a prova de que existe uma sociedade viva, que não se conforma com a proibição do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Certas da força e da razão do articulado constitucional, nomeadamente do artigo 13º, que proíbe qualquer tipo de discriminação com base na orientação sexual, ambas decidiram correr o risco de conquistar o direito a casar.
Sem esperar pela resposta à petição entregue no Parlamento, no passado dia 23, que reuniu mais de quarto mil assinaturas, Teresa e Lena decidiram enfrentar, com a cara destapada, os poderes instalados, que insistem nos tiques marialvas, apesar da fina camada de verniz liberal.
Este casamento é muito mais do que um acto de amor.
É um sinal de que existe, em Portugal, uma sociedade que não encontra resposta nos partidos políticos, que hipocritamente continuam a varrer para debaixo do tapete uma questão de civilização.
Enquanto a classe dirigente se contenta com umas viagens a Paris, a Londres e a Nova Iorque para reivindicar o estatuto de elite cosmopolita, as grandes causas da sociedade civil continuam a passar-lhe completamente ao lado.
O desafio a quem persiste em tentar deixar apodrecer mais uma questão incómoda constitui um sinal de esperança.
Tal como a candidatura de Manuel Alegre, que seduziu mais de um milhão de portugueses, a opção pública de duas jovens homossexuais representa uma cidadania revigorada, um país em mudança.
Apesar dos esforços de alguns, em justificar o injustificável, a verdade é que existe uma parte da sociedade que está farta do actual status quo, engordado à custa do moralismo reinante e dos negócios que tresandam a corrupção e a tráfico de influências.
A defesa da igualdade de direitos para os casais homossexuais nem é de esquerda nem é de direita: é uma questão de liberdade.
Os sonhos das duas jovens merecem a atenção e uma resposta de todos, nomeadamente dos que têm responsabilidades legislativas e governativas.A vida das pessoas é mais importante do que as manobras dilatórias e politiqueiras
Fonte: Visão

sábado, janeiro 28, 2006

RETALHOS - O frio da realidade I

A fase final da preparação de um Combatente Pára-quedista, é dedicada a simular, em condições adversas e semelhantes ao da guerra no ultramar, uma operação militar que ocorrem nas três frentes de batalha em África. Visa o último teste de aperfeiçoamento, de forma a pôr em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo destes sete meses.
O dia começou frio, como a noite não dormida, como é habitual na viagem de fim-de-semana. Lá estavam as Berliet’s, – as viaturas, de origem francesa e montadas no Tramagal, mais usadas no transporte de tropas – alinhadas ao longo do arruamento que aponta para a porta de armas, à nossa espera para nos embrulhar no seu aço frio.
A ração de combate, para quatro dias, estava bem aconchegada na mochila. Tudo era enlatado: feijão, sardinhas, bolachas da manutenção militar, ladrilhos de marmelada, chocolate em bisnagas como se fossem pastas de dentes, água enlatada no cantil. Até eu me sentia também enlatado dentro daquele camuflado, modelo PQ qualquer coisa, com uma dúzia de bolsos de coisa nenhuma. Tudo ia na minha casa ambulante – a mochila – e ainda a manta e a capa para dormir, bem enrolada em forma de “U” invertido. A isso juntava a G3 carregada com munições de madeira.
Surgiu o Capitão Gomes, já completamente ataviado com ar de guerrilheiro. Abandonou o ar de bonacheirão, adoptando agora aquela expressão dura, com o olhar penetrante e atento, capaz de penetrar no íntimo de cada soldado, mercê da sua larguíssima experiência adquirida na guerra.
E um a um lá gritavam os comandantes de pelotão até chegar ao meu grupo:
“ - Dá licença meu capitão, 7º pelotão pronto.” - Gritou com voz firme o Sargento.
De forma ordenada, fomos subindo para aquelas máquinas de aço frio e pouco cómodas, onde se acomodaram trinta futuros combatentes.
Ainda o dia não tinha despontado e já se notavam, no horizonte, nuvens escuras de chuva que aliadas à penumbra tornavam o ambiente ainda mais gélido. Saímos à porta de armas do Regimento, com a sentinela bem perfilada.
O comboio militar virou à direita ficando, à esquerda, a Base Aérea nº 3, onde descansavam os nossos amigos Noratlas, e o ainda velhinho Ju-52, velhos conhecidos, dos saltos no Arripiado.
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sexta-feira, janeiro 27, 2006

Vou me alistar novamente nos Pára-quedistas


Vou me alistar novamente nos Pára-quedistas e não estou maluco, não senhor. Contando com camaradas d'armas deste calibre e com este poder de fogo, claro que vou...


Espreitem e verão que tenho razão.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Austeridade: reformados famosos

Reforma ao fim de 5 anos de serviço

Estão nesta situação o ex-deputado do Partido Comunista Português, Octávio Teixeira, aposentado como consultor com o nível 18a desde Dezembro de 2001, que recebe uma pensão de 2385 euros por mês, o presidente do Conselho Fiscal do Benfica, Walter Marques, reformado do banco desde Dezembro de 1991 com o mesmo estatuto do ex-deputado comunista e o fiscalista Diogo Leite Campos, que se reformou como administrador em 23 de Fevereiro de 2000.
Um caso ‘sui generis’ aconteceu com o ex-ministro das Finanças, Bagão Félix. Trata-se do único quadro superior (foi vice-governador) do Banco de Portugal que foi exonerado pelo ministro das Finanças (Eduardo Catroga) e que não aceitou a reforma a que tinha direito. “Entrei para o banco em Fevereiro de 1992 e fui exonerado em Junho de 1994 na sequência do caso Banesto. Saí sem indemnização, sem pensão e sem emprego”, disse Bagão Félix ao CM.
As normas que regem as pensões de reforma do Conselho de Administração do Banco de Portugal têm, no seu ponto 4.º, uma “garantia de reforma” que estipula o seguinte: “O Banco de Portugal, através do seu Fundo de Pensões, garantirá uma pensão de reforma correspondente ao período mínimo de cinco anos, ainda que o membro do Conselho de Administração cesse funções, a qualquer título”.
As pensões atribuídas aos membros do Conselho de Administração do Banco Central são actualizadas, a 100 por cento, na base da evolução das retribuições dos futuros Conselhos de Administração, sem prejuízo dos direitos adquiridos, especifica o ponto 6 das referidas normas.
O ponto 7 regula a cumulação de pensões, consagrando a possibilidade de, “obtida uma pensão de reforma do Banco de Portugal, o membro do Conselho de Administração pode obter nova pensão da Caixa Geral de Aposentações [CGA], ou de outro qualquer regime, cumulável com a primeira”. No entanto, a parte da nova pensão correspondente aos anos de serviço que já tenham sido contados para a reforma concedida pelo banco deverá ser restituída.
Para além da pensão, os membros reformados do Conselho de Administração gozam de todas as regalias sociais concedidas aos administradores no activo (carro e cartão de crédito) e também aquelas dadas aos trabalhadores da instituição.
DOIS JAGUAR A CAMINHO
A frota de automóveis do Banco de Portugal é de fazer inveja a muitos ministérios. Os contratos de ‘leasing’ das viaturas têm a duração de três anos, sendo os modelos renovados após esse período. Recentemente, foi divulgado que a administração encomendou no passado mês de Dezembro seis nova viaturas; três Volkswagen Passat, dois Audi A4 e um Mercedes classe E. No entanto, o CM sabe que, a somar a estes estão também encomendados dois Jaguar que deverão ficar adstritos a directores da instituição. Recorde-se que, segundo um estudo realizado pelo ‘Central Banking Journal’, o Banco de Portugal é a terceira instituição de supervisão que mais gastos tem com pessoal em percentagem do PIB (0,08 por cento) entre os 30 países da OCDE, só superado pelo banco grego e islandês.
ALGUNS DOS REFORMADOS DO BANCO CENTRAL
Nome: Campos e Cunha
Cargo que ocupava: Vice-governador
Início da reforma: 2002, por cessação de funções
Valor da reforma: 8000 euros
Nome: Tavares Moreira
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18c
Início da reforma: 1 de Junho de 1999 – negociada
Valor da reforma: 3062 euros
Nome: Miguel Beleza
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18c
Início da reforma: 1 de Novembro de 1995 – negociada
Valor da reforma: 3062 euros
Nome: Cavaco Silva
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18b
Início da reforma: 15 de Julho de 2004 – por limite de idade
Valor da reforma: 2679 euros
Nome: Octávio Teixeira
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18a
Início da reforma: 1 de Dezembro de 2001 – negociada
Valor da reforma: 2385 euros
Nome: Ernâni Lopes
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18
Início da reforma: 1 de Setembro de 1989 – negociada
Valor da reforma: 2115 euros
Nome: Rui Vilar
Cargo que ocupava: Técnico consultor de nível 18b
Início da reforma: [n.d.]
Ocupa o cargo de presidente do Conselho de Auditoria
Valor da reforma: N.D.
Nome: António de Sousa
Cargo que ocupava: Administrador de nível I
Início da reforma: 23 de Fevereiro de 2000 – Regime dos Membros do Cons. Adm.
Valor da reforma: N.D.
Fonte: Correio da Manhã

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Num jardim a comer o rabo de uma gatinha...

Cuidado com os maníacos!
No caso apresentado de seguida o meliante estava num jardim a comer o rabo de uma gatinha...

Vejam a cara de felicidade e satisfação do tarado, que ficou completamente insensível à dor da pobre vítima:

Passem com o rato pela imagem abaixo para ver (pode demorar um pouco)!

Cuidado almas sensíveis! Podeis sofrer um grande abalo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

RETALHOS - A vermelhinha

Dos “duzentos paus” que a minha mãe me dava, por semana, e descontando os 110$00 que a CP cobrava por um bilhete militar de Viana ao Entroncamento (ida e volta), era com “noventa paus”, por semana, que eu tinha que me desenrascar para o tabaco, para as cartas e selos, e já pouco sobrava para as cervejolas.
Conhecia as dificuldades da vida, e era sabedor da luta, diária, que minha mãe, analfabeta, mas com um sentido arguto para o negócio, travava na sua loja de ferro-velho, para poder juntar “algum” para os dois filhos, que estavam na tropa, e, ambos, teimavam em vir a casa todos os fins-de-semana.
Nunca me aventurei em jogar à batota, por não ter muito jeito, por medo de perder o pouco pecúlio, mas também porque não tinha massa para arriscar. Alguns camaradas (sempre que o cabo ou sargento de dia, não estivesse por perto) aproveitavam as horas mortas para jogar à "lerpa" a dinheiro ou a tabaco. Os menos instruídos nessa arte jogavam ao montinho e os mais reguilas, das grandes cidades, mais habituados a levarem os outros por lorpas, arriscavam a jogar à vermelhinha. Eu arrisquei uma vez e serviu-me de emenda para toda a vida.
A vermelhinha era um jogo de cartas, da mais pura batota, e que ainda se vê, um pouco à socapa, por feiras e romarias depenando os incautos. Consistia em escolher uma dama de um naipe vermelho (daí o nome Vermelhinha), entre duas outras cartas de naipe preto. O jogador, batoteiro, mostrava previamente onde estava a dama e, depois de manipular as cartas com grande velocidade, convidava a vítima a tentar descobri-la. Para servir de isco havia sempre um cúmplice. Este jogava e acertava quase sempre e até nos “ajudava” quando o batoteiro fingia uma pequena distracção. Indicava-nos onde devíamos apostar, chamando-nos a atenção para o facto da dama estar marcada com uma pequena dobra num dos cantos. Ganhei a primeira vez, o que a mim, e a outros incautos, me levou a apostar mais forte de seguida. Mas joguei pouco.
O papalvo do Marques lá começou a jogar, tendo escolhido de imediato a carta marcada. Só que a carta marcada era afinal um Às de espadas! Como é que isto podia ter acontecido?
O Júlio Maia, colega mais antigo e por sinal também de Viana do Castelo, onde chegámos a trabalhar juntos numa fábrica de boinas, a CEDEMI – que para além de fornecer as boinas aos militares também era conhecida pela paixão e dedicação ao ciclismo - não chegou a ir á guerra, tendo se especializado na dobragem e manutenção dos pára-quedas, Na sua farda amarela imponente, depois de me deixar perder outra vez, chamou-me de lado e disse:
“- Zé, deixa-te dessas merdas, esse jogo é só para perder dinheiro. Ninguém ganha. Repara naquele “Pára”.” – Referindo-se de forma abreviada a um pára-quedista.
“ – Aquele tipo é o cúmplice, está ali para vos sacar a massa. Deixa-te de ser parvo e gasta mas é o dinheiro numas cervejolas que tem mais interesse. Anda daí, vamos ao bar. Esses gajos são uns filhos da puta, quando baterem com os cornos, em Angola, vão aprender o valor da amizade. Foge deles.” – disse o Maia.
E lá me explicou que naquele jogo era quase impossível alguém ganhar. Havia muitos truques que o batoteiro podia fazer, incluindo, naturalmente, o truque de, disfarçadamente, desmarcar o canto da dama, para marcar o de uma das outras cartas de naipe preto. O dito cúmplice do batoteiro, quando me deu a dica, sobre a marca, era mesmo no sentido de me “ajudar” a esvaziar os bolsos.
Aprendi a lição: no jogo da vida, ganha quem tiver amigos e cúmplices, que nem sempre são fáceis de descobrir. Na situação real de jogo, os ganhos afinal seriam partilhados com o amigo, que era, para efeitos de demonstração da «teoria da amizade» o seu verdadeiro cúmplice naquele jogo.
É evidente que, a maior parte das vezes, acabava tudo à batatada, num espírito “fraterno” em que ninguém, naquele quartel, se incomodava em acalmar os ânimos. Sempre achei que isso já fazia parte da instrução no sentido de nos brutalizar.